Aqui a imaginação cria asas
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quarta-feira, 10 de outubro de 2001
Maranúbia Barbosa 
Com a pressa cotidiana pouco tempo sobra para se observar o traçado geométrico de Londrina, que prima pela originalidade dos nomes de tudo o que se refere à ela. Sem tempo para olhar as placas nas esquinas, resta uma alternativa: folhear o guia telefônico das quatro regiões da cidade. Boas surpresas esperam os mais curiosos, ou os mais pacientes, que encontram tempo e disposição para ler as letras miúdas. Risos, nostalgia, indiferença e perguntas intrigantes, aparentemente sem respostas estão associados aos nomes dos bairros e ruas encontrados na Lista de Endereços, Compras e Serviços, batizada com um nome interessante: Aqui.
Qual não seria o susto dos londrinenses do Bairro Albatroz (zona leste) se um dia desses vissem planar sobre as casas a ave marinha que lhe emprestou o nome, com seus três metros de envergadura, soberana, mas completamente desorientada e fora de rota? Susto mesmo levariam os moradores das chácaras da Aviação Velha (sul), se abrissem a janela e dessem de cara com Santos Dumont pilotando o 14 Bis, num vôo rasante, direto e sem escalas do campo de Bagatelle, em Paris, para o bairro da zona sul de Londrina. Em surto entrariam as donas de casa da Rua Cegonha (no Conjunto Violin, zona norte) se olhassem para o telhado e no lugar dos costumeiros pardais encontrassem um ninho com a ave carregando um bebê rechonchudo no bico.
Sonhar, todos sonham, e alguns o fazem até acordados. Será que quando dormem os moradores do Bairro Shangri-lá (oeste) imaginam que os habitantes da cidade mística que leva o mesmo nome, perdida nos confins de um maciço montanhoso da Ásia, onde ninguém envelhece, batam à porta e lhes entreguem a fórmula da felicidade eterna?. Sem nenhum braço de mar, baía ou península nos arredores, as famílias do Bairro Mediterrâneo (sul) inflam as narinhas e aspiram a maresia. Também sonhando com o mar, as crianças do Bairro Acapulco (sul) largariam de vez as pipas empinadas nas ruas para esculpirem castelos de areia no balenário mexicano, batizado com o mesmo nome do lugar onde moram.
Se um anjo passasse pelo Distrito Espírito Santo (sul) e saíssse por aí realizando sonhos, o que pediriam os meninos do Jardim Maracanã, na zona oeste? Poderiam ser esses os três desejos: ''Quero as pernas tortas de Guarrincha!''; ''Quero estar no Maracanã, tirar a bola do caminho de Giggia e devolver a Copa de 50 ao Brasil!''; ''Quero de volta os 11 homens de 70!''. Um menino tavez ainda tentasse convencer o anjo a realizar mais um desejo: ''Por favor, uma bola oficial para mim, pode ser?''. Pensou direito: ''Vá lá, suspenda a bola e leve lá para Milão um joelho novo para o Ronaldo'', negociou.
Será que no supermercado, os moradores da Vila Siam (leste) dão preferência ao presunto, apresuntado ou à mortadela que tem como marca o nome do bairro? Fica a pergunta: quem nasceu primeiro, a mortadela Siam ou o bairro? Ainda no Aqui, mais perguntas. Alguém sabe onde estão os jardins mais bonitos: na Rua Flor de Lótus (sul), ou na Rua Flor de Lis (leste)? No Aqui não consta, mas todo mundo sabe que a neve nunca caiu sobre os telhados do Jardim Alpes (norte). Entretanto, os garotos de lá não perdem a esperança de ver o dia em que possam montar bonecos de gelo com cenoura no nariz. Esperança mesmo têm os meninos do Assentamento São Jorge, na região norte. Nas noites de lua cheia eles ficam nos quintais olhando para São Jorge montado no cavalo branco, corajoso, encarando de frente o dragão. Os meninos do São Jorge sonham com o dia em que vencerão um dragão ainda mais poderoso: aquele que cospe o fogo da desigualdade pelas ventas.


