Apucarana e o seu primeiro prefeito
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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
Widson Schwartz<br>Especial para a FOLHA 
Apucarana - Segundo uma versão já histórica, a Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP) tinha interesse menor no Patrimônio Apucarana, evitando melhorá-lo para não valorizar área limítrofe de outros proprietários. E isso motivou pioneiros a reivindicar a criação do município. A emancipação, porém, era inevitável, por causa do avanço do café através das propriedades familiares, determinantes da rápida povoação e a interferência do Estado.
Quando se iniciou a colonização do Norte Novo, em 1930, a cafeicultura paranaense limitava-se a 58.800 hectares; dez anos depois abrangia 200 mil. No decorrer dos anos 40, os municípios no Paraná aumentaram de 49 para 80, em 1950, a maior parte no rastro do café. Uma só lei criou, em 30 de dezembro de 1943, os de Apucarana e Rolândia no Norte Novo, Andirá e Assaí no Norte Velho e Pitanga, no Centro do Estado.
"Tenho a subida honra de levar ao conhecimento de V. Excia. que de conformidade com o disposto na lei orgânica federal n.º 311, de 2 de março de 1938, e no decreto-lei estadual n.º 199, de 30 de dezembro de 1943, foi, com o ritual de estilo, instalado o município de Apucarana em data de 28 de janeiro do ano em curso (1944). Nessa mesma data tomei posse do cargo de Prefeito desta nova comuna paranaense." Eis o parágrafo inicial do comunicado, expedido a outros prefeitos e autoridades, assinado em 7 de fevereiro de 1944 pelo tenente Luiz José dos Santos.
Contrastam no documento as cores verde, da impressão em tipografia, e preta da assinatura pessoal provavelmente com uma daquelas canetas-tinteiro tão desejáveis à época (Parker, Sheaffer's, Mont Blanc). No segundo parágrafo, o Prefeito dá relevância à autoridade máxima, que o designara para o cargo: "o exmo. snr. Manoel Ribas, M. D. Interventor Federal".
O interventor e o prefeito, duas personalidades do "Paraná Velho" menção de historiadores do Sul adaptadas ao Novo, assimilando uma outra cultura. Santos "aclimatara-se" ao Norte já na condição de um daqueles "homens da inteira confiança" do Ribas. Delegado regional em Londrina, "tornou-se, o bravo oficial, a figura mais popular e querida do povo deste município", por ter revigorado a campanha pró-construção da Santa Casa mobilizando os escoteiros, registrou o jornal Paraná-Norte em 1940. Mas, por causa de um editorial desagradável ao Ribas, converteu-se no "vilão" cerceador da liberdade de imprensa: fechou a Folha do Sul, em 1942.
Santos foi duas vezes prefeito de Apucarana, a segunda por eleição em 1951. Ao término do segundo mandato, se tornou deputado estadual, integrando-se à Assembleia Legislativa na condição de suplente.
"Com Deus e o povo"
Designando prefeitos militares, geralmente amigos, Ribas impunha a representatividade autoritária do Estado Novo (a ditadura Vargas) na zona cafeeira, onde os pioneiros "não mostravam aquele sentimento de hierarquia, aquela espécie de veneração à autoridade , sensível em zonas mais antigas", percebeu o cronista Rubem Braga ao conhecer a região.
Precedendo o tenente Santos em Apucarana, o afamado delegado capitão Aquiles Pimpão fora nomeado prefeito de Londrina. Contrastavam apenas fisicamente, Pimpão muito aquém da robustez de Santos (mais de 100 quilos). Não se conhece uma imagem de Pimpão sorrindo; Santos aparece com semblante plácido, embora fosse bravo. Tinha 40 anos ao assumir Apucarana, que administrou até 14 de outubro de 1945; duas semanas depois, a 29, os militares tiraram Getúlio Vargas da presidência da República.
Substituído no governo estadual em 3 de novembro, Manoel Ribas pretendia candidatar-se a governador em 1947. Morreu antes, em 28 de janeiro de 1946.
"Com Deus e com o povo, para prefeito Luiz José dos Santos", da coligação PR-UDN-PSD, proclama o panfleto. E assim, Apucarana o elege democraticamente em 22 de julho de 1951. Três votos de diferença: 3.488 a 3.485 do médico Dagoberto Pusch (PTB). Fora promovido a tenente-coronel e quase invariavelmente é chamado "coronel Luiz".
Inimigos políticos lhe põem apelido pejorativo associado à patente e ao físico, mas o prefeito não lembra o militar, usa ternos bem cortados de linho ou de casimira; só muda o figurino, para o traje grosseiro de brim cáqui, quando vai inspecionar obras na zona rural. Exceto os filhos mais velhos, sua família mora em Apucarana.
Uma das obras de seu segundo mandato é a Praça Manoel Ribas ("o redondo"), com a fonte luminosa ao centro, que a comunidade desfrutou intensamente naqueles anos, deslocando para lá o "footing" (passeios e encontros noturnos). Santos morreu em Curitiba, sua cidade natal, em 21 de abril de 1961.
Em Apucarana, o seu busto de bronze está em frente ao de Ribas, na praça, "um olhando para o outro."
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