Do lado de fora, a vida passa desapercebida entre os que não estão privados da liberdade. Do lado de dentro, o valor de se estar vivo ganha outros significados. E foi para tentar alertar quem está fora e alegrar quem está dentro que um grupo de presas do 3º Distrito Policial (Zona Oeste de Londrina) apresentou ontem duas coreografias de dança inspiradas em músicas gospel. No lugar, estão 89 presas onde deveriam ficar apenas 32.
Foi tudo muito simples. O cenário foi o solário onde todos os dias elas podem olhar o céu através das grades. A iluminação foi a natural mesmo. Quente e viva. No figurino também foi preciso improvisar: camisetas brancas e jeans. A sonoplastia coube a uma companheira de prisão. Os passos, ensaiados na própria carceragem, tinham a inspiração espontânea de quem nunca teve aulas de ballet ou dança moderna. Eram simplesmente francos. Na platéia, as dezenas de olhinhos curiosos das crianças pequenas se misturavam à alegria triste, mas orgulhosa, de maridos, pais, mães, irmãos, irmãs, amigos.
Não havia texto. Elas preferiram repetir as palavras entoadas por músicos gospel que falavam de privações, da possibilidade de se alcançar o impossível, de criar nascentes em terras secas, de passar firmes por águas turbulentas. Gritaram que ''nem água nem fogo'' pode destruir. Que vitoriosos são os que acreditam e lutam por um mundo mais justo. ''E o impossível pode acontecer. Vitória e honra Ele trará'', cantavam em outro trecho. Numa das músicas, as presas-artistas diziam não querer pensar ''no fim''. ''Quero de volta o que é meu: os planos que foram embora, os sonhos que se perderam.''
O final foi apoteótico. ''A vitória é nossa em nome de Jesus. Se Deus é por nós quem será contra nós'', alardearam aos quatro ventos. Emocionadas, se abraçaram umas as outras. Um sinal de que amizade e companheirismo também podem existir do lado de dentro de uma prisão.
Gritando por entre as grades do solário, a idealizadora do grupo, Rosemara de Souza, explicou que a apresentação nasceu da necessidade de provar que dentro da prisão também há vida. ''Fizemos isso para que as pessoas aí fora não tenham só uma má impressão nem façam mau juízo da gente que está aqui dentro'', justificou com lágrimas nos olhos e um sorriso no rosto. ''Não é que arrependemos das coisas erradas, porque aí fora também tem erros como aqui dentro. Foi simplesmente para lembrar que aqui dentro também tem mãe de família e gente de bem'', concluiu antes de voltar para a cela.

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