'Aprendi a ter mais paciência e força de vontade'
''Perdi a esposa e fiquei em casa sem saber o que fazer. Então vim estudar. Fazer o que não fiz no passado'', revela Samuel Pires do Amaral, que, aos 84 anos, é o aluno mais velho da turma. Amaral conta que estudou até a 3 série primária, e que agora pretende estudar ''por muito tempo''. ''Não para me formar, mas para ocupar o tempo. É divertido. Além disso, a gente vai ficando velho e fica meio esquecido das coisas'', afirma. Para voltar às salas de aula, o vendedor aposentado contou com o apoio da família. ''Mesmo se dissessem o contrário, se você tem a intenção de fazer alguma coisa, você tem que fazer por você, e não pelos outros. Mas o estímulo é muito bom'', comenta.
Já Fumiko Murayama, 67 anos, estudou até a metade do colegial, mas no Japão. Morando no Brasil desde 1958, ela conta que não teve tempo nem condições financeiras de estudar aqui também, mas aprendeu a ler sozinha. ''Sei até ler jornal. Mas tinha coisa que não entendia. Sempre trocava o R e o L, agora estou aprendendo melhor o português. Só os verbos é que são mais difíceis'', confessa. Mas, para ela, o melhor mesmo é o ambiente em sala de aula e as amizades que fez desde que começou o curso, em fevereiro. ''A gente esquece tudo durante três horas, é uma terapia. E na nossa idade não pode parar. Todo dia eu saio para algum lugar'', conta Fumiko, acrescentando que participa de coral, canta, faz alongamento e dança de salão. ''Ano que vem, quero fazer computação.''
Um dos poucos jovens da classe, Valdecir Alves Sampaio Junior, 16 anos, voltou a estudar por influência da avó, que entrou no curso e gostou tanto que convenceu o neto a se matricular também. Agora, o jovem já planeja fazer supletivo e chegar até uma faculdade. ''Estudei até a quinta série, mas era muita bagunça, e desanimei. Aqui é legal, eles são animados, e isso dá força pra gente'', opina.
Jean Carlos Rodrigues da Silva, 15 anos, é outro que diz preferir ter aulas com colegas que têm até cinco vezes a sua idade a voltar a estudar com os mais jovens. ''Comecei faz dois meses, e já aprendi bastante coisa. Se fosse com alunos mais jovens faria muita bagunça'', reconhece o jovem, que mora em uma casa-abrigo e nunca tinha frequentado uma escola.
Mas não são só os alunos que se empolgam com o programa do Sesc. Professores e funcionários também são só elogios para o curso, que funciona como um centro de convivência para os alunos da terceira idade. ''Tenho paixão pelo projeto. Às vezes a gente vai trabalhar desanimada, chega, vê eles empolgados e se contagia. Além disso, aprendi com eles a ter mais paciência, perseverança e força de vontade'', conta a secretária Edilene Teixeira Palhares. (A.I.)





