O Mal de Alzheimer chegou sem ser convidado e deu um susto no engenheiro agrônomo aposentado Secho Akatsu. Aos 78 anos e ativo, ele não conhecia a doença e sofreu bastante até entender que seria necessário mudar um pouco sua rotina. "Foi um choque grande, pois a gente nunca espera. Mas aos poucos fui entendendo que era possível levar uma vida praticamente normal", conta. Assim também foi com a esposa, a dona Satoko. Afinal, como eles vivem sozinhos, teria ela uma responsabilidade ainda maior nos cuidados com o marido. "Nós sofremos muito sem saber, mas agora já temos uma noção de como lidar", revela.
A participação no projeto "Memória e Comunicação" foi essencial. Foi lá que eles aprenderam a lidar melhor com os obstáculos que a doença impõe ao dia a dia. O programa da rede municipal, que existe desde 2013, foi criado com o objetivo de ajudar doentes e familiares a entenderem a doença, que se caracteriza pela perda de funções cognitivas (memória, orientação, atenção e linguagem), causada pela morte de células cerebrais.
A ideia é estimular a memória dos portadores do Alzheimer com atividades lúdicas e comunicativas, além de fortalecer a comunicação com os chamados cuidadores, pessoas que acompanham os pacientes nas reuniões. "O que a gente faz é trazer todo um lado de alegria, de habilidades, resgatar coisas que eles sempre gostaram de fazer. A gente brinca, canta, e ninguém se preocupa se está afinado ou não. E o retorno que temos dos familiares é que melhora muito a relação dentro de casa", observa a coordenadora do projeto, a assistente social e gerontóloga Liz Clara Campos.
E basta acompanhar um único encontro para ver que a estimulação funciona mesmo. Secho puxou a fila do karaokê e não decepcionou. Os outros colegas do grupo também entraram na brincadeira e ninguém ficou parado. "No dia a dia, ele pode trabalhar isso também através de atividades que lhe deem prazer, como atividade física, leitura, música também ajuda muito", acrescenta Liz Clara. "Até um tempo atrás não se dava muita atenção ao paciente no sentido de estimular a memória, era quase que um caso vencido. E se vai retirando muitas atividades do doente, o que não é o caminho", reforça a gerontóloga.
O próprio Secho diz que o projeto lhe ajudou a conhecer a doença. "Para mim, tem sido muito bom. Estou descobrindo formas de saber qual fase da doença estou vivendo, e tentando entender e retardar o avanço. E é isso que eu quero. Até aonde puder, quero manter meu arquivo pessoal, que é o meu cérebro", destaca o engenheiro agrônomo aposentado.
O também aposentado Kosabro Anegawa, de 78 anos, é o cuidador da esposa Teruko, de 76. Ela descobriu a doença há cinco anos e desde então eles buscam formas de tentar impedir o avanço do Alzheimer. "O projeto tem sido muito importante para nós dois. É preciso aprender como lidar, procurar entender como a doença funciona, e a forma de tratar, além de envolver a família", indica.
Kosabro aponta que a participação nas atividades lhe deixou mais preparado para uma nova forma de convívio com a esposa, com quem está casado há 47 anos. "Só de não piorar já é um grande avanço e o projeto tem fortalecido bastante nesse sentido", elogia.

CONFRATERNIZAÇÃO
"Pacientes e familiares ficam bastante confusos acerca da doença e alguns tendem a superproteger o paciente. Através desse programa, a gente percebe que o paciente demonstra suas potencialidades e o familiar vê que ele pode fazer muitas coisas dentro de casa", explica a médica geriatra da rede municipal, Lindsey Nakakogue.
O programa tem ao todo dez sessões. O encontro final é uma confraternização, na qual pacientes, cuidadores, filhos e outros parentes também podem participar. Acontece a apresentação de todos os trabalhos produzidos pelos idosos, algo que serve de estímulo para continuarem as atividades em casa.
Para integrar o programa, o paciente precisa antes ser avaliado por um médico da Unidade Básica de Saúde (UBS). Constatada a doença, ele será encaminhado à Policlínica, onde passará por novos exames para detalhar o estágio da doença, o que possibilitará à coordenação do programa saber em qual grupo encaixá-lo.

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