Aposentados se preparam para a morte
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de outubro de 1998
Sid Sauer 
O aposentado Wantuil de Assis, de 75 anos, garante que não tem pressa nenhuma de morrer. Enquanto eu estiver andando e me virando sozinho, quero curtir a vida, diz. Apesar da falta de pressa, Assis se considera um homem prevenido. Principalmente quando o assunto é a morte. Por isso mesmo, ele já mandou fazer a foto com moldura dele e da mulher, Anagibe da Rocha Walter, 65, que deverá ser colocada no túmulo dos dois. As fotos estão prontas há oito anos e o túmulo, no Cemitério São Judas Tadeu, em Campo Mourão, há 13.
Comprei o terreno no cemitério em 1985 e construí o túmulo 10 anos depois, conta Assis. O próximo passo é mandar fazer as placas com o nome dele e da mulher e as datas de nascimento dos dois. Vai ficar faltando só a data de falecimento, explica. Assis, no entanto, guarda as fotos do túmulo em casa. É para que ninguém pense que ele já morreu. Todos os procedimentos têm o apoio da mulher. É bom que isso seja feito porque já fica tudo pronto, frisa Anagibe. Ela mesma escolheu a foto que ficará em seu túmulo.
No cemitério, o túmulo construído pelo casal já tem até definição do lado em que cada um será enterrado. Assis ficará à direita e a mulher à esquerda. Não quero ficar na beirada, explica o aposentado, referindo-se à esquina. Esse não é o primeiro túmulo que Assis manda fazer para si próprio. Ele tem um outro, pronto há 30 anos, em Ibiporã. Quando meu pai morreu, em 1968, já mandei fazer uma sepultura grande com espaço para mim também, conta. Só que adotei Campo Mourão como berço eterno e tive que fazer outro túmulo.
Tradição familiar Segundo Assis, deixar as placas e as fotos prontas para pôr no próprio túmulo já se tornou uma tradição da família. O primeiro a ter a idéia foi o pai dele, Antônio Olegário de Assis, que, quando morreu, em dezembro de 1968, já tinha a foto do túmulo pronta havia 10 anos. Olegário também já tinha mandado fazer a foto da mulher, Ubaldina Gonçalves Nalim, que morreu um ano depois. Hoje, além de Assis, três irmãos dele - um em Campo Mourão, um em Ibiporã e outro em Engenheiro Beltrão - já têm as fotos prontas.
Com o túmulo todo pronto, já vou sabendo onde vou ficar, explica Assis. Ele diz que fica triste quando vai ao cemitério e vê túmulos abandonados. Tem muita gente trabalhadora que merecia um tratamento melhor depois de morto, lamenta. O túmulo é a forma que a gente pode ver que aquela pessoa existiu. O aposentado diz que um dos motivos que o levou a deixar tudo preparado é o receio de que seja enterrado de qualquer jeito. Pelo menos tenho certeza de que serei lembrado por um bom tempo.
Assis também já elaborou as frases que quer colocar em seu túmulo. Uma delas mistura agradecimento com desculpas: Aos que passarem por aqui, meu muito obrigado. Quem eu ofendi, minhas desculpas. Já a outra mostra confiança no que vem depois: Wantuil não morreu. Está dormindo nos braços do Nosso Senhor Jesus Cristo. Fui eu mesmo quem inventou essas frases, diz. Empolgada, Anagibe também quer frases no lado dela do túmulo. Mas ainda não pensei o que vou escrever.
Terno azul Em Campo Mourão, no entanto, Assis não é o único que prepara seu berço eterno. O aposentado Dario Munin, de 80 anos, que foi dono da balsa do Rio Ivaí, quando ainda não existia ponte entre Campo Mourão e Maringá, segue o mesmo caminho. Ele mandou fazer seu túmulo há três anos e não hesitou em já mandar colocar a placa com seu nome e data de nascimento. Em branco, apenas a data da morte. Munin também já comprou um terno azul escuro especialmente para a ocasião. A roupa está na casa dele e nunca foi usada.
Só falta comprar o caixão, explica o aposentado. Só não comprei ainda porque está muito caro, explica. Munin já esteve na funerária e escolheu o modelo de caixão no qual pretende ser enterrado. Custa R$ 2,8 mil. A foto que será colocada no túmulo também está pronta e chegou a ficar na sepultura, mas acabou sendo retirada pelo próprio Munin. Tirei porque tinha gente pensando que eu já tinha morrido, conta. Com a foto, credores dele chegaram a deixar de pagar dívidas achando que Munin estava morto.
O aposentado também nega que esteja com pressa de morrer. Tenho fé que vou viver mais uns 20 anos, diz. Só quero deixar tudo pronto para não incomodar ninguém depois que morrer. Enquanto está vivo, Munin não descuida do túmulo que fez para si próprio. Ele faz visitas constantes ao cemitério para trocar as flores da sepultura e paga uma zeladora para deixar o túmulo sempre limpo. Algumas pessoas falam que tudo isso é besteira, mas não quero nada dos meus filhos, ressalta Munin.


