Aposentados são vítimas de assédio
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 01 de novembro de 2007
Fernanda Borges<br>Reportagem Local 
Bem na idade em que deveriam aproveitar os experientes anos de suas vidas para descansar sem preocupação, uma grande quantidade de idosos aposentados sofre por causa de dívidas. Beneficiados ou aposentados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), têm sido frequentemente procurados por financiadoras e muitas vezes não sabem mais como evitar o assédio. Além das instituições financeiras, estabelecimentos comerciais como farmácias, supermercados e lojas incentivam o uso de crediários.
Nem sempre bem informados, muitos idosos são ''pegos de surpresa'' com juros altos e até o que realmente é cobrado por meio dos cartões de crédito. O radialista Osvaldo Pereira da Cruz enfrentou recentemente grandes dificuldades com a mãe dele, Aparecida Pereira da Cruz, 74 anos. Apesar de receber um benefício do INSS equivalente a apenas um salário mínimo, ela teria sido convencida a fazer várias compras a prazo, se atrapalhou com as contas e depois ficou quase doente ao descobrir o tamanho da dívida que tinha assumido.
''Minha mãe é separada do meu pai e quis morar sozinha. Eu pagava o aluguel para ela e o que ela recebia dava para ela se manter, só que ela teve tanto cartão de crédito e tanta dívida que chegou a passar fome. Quando vi a situação dela, trouxe-a para casa. É um absurdo o que eles fazem com os aposentados. Minha mãe tem pressão alta, não pode ficar tão preocupada que passa mal, sua pressão sobe. E se ela ficar doente por causa disso, alguma instituição financeira vai arcar com as despesas de sa© úde dela?'', questiona Osvaldo, indignado.
Revoltada com tudo o que passou, dona Aparecida deu um fim nos cartões. ''Fiquei tão nervosa que acabei queimando tudo. Já tentei devolver um cartão numa farmácia e eles não aceitam. Fazem de tudo para a gente ficar com ele. Uma vez fiz uma pequena compra num supermercado e eles me convenceram a comprar a prazo. O pior é que as contas vão acumulando e depois a gente não consegue pagar'', reconhece.
O cartão utilizado por dona Aparecida para pagar as compras do mercado é, na verdade, um convênio do mercado com uma financiadora. Por causa disso, uma compra que era de R$ 60 reais, chegou a dobrar por causa dos juros. ''Minha mãe havia se mudado de endereço então acabamos demorando para encontrar a fatura. Quando fui pagar, o valor já tinha dobrado e o nome dela estava prestes a ir para o Serasa. Trabalho há mais de vinte anos numa empresa e quando vou comprar algo a prestação eles só faltam pedir meu exame de sangue. Para minha mãe, o crediário é imediato'', estranha Osvaldo.
A professora do curso de Serviço Social da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Sandra Perdigão Domiciano, realizou uma pesquisa que foi premiada mês passado no 5º Congresso Sul Brasileiro de Geriatria e Gerontologia, realizado em Curitiba. O objetivo foi identificar a compreensão dos idosos sobre empréstimos. Segundo ela, o que a motivou a fazer tal pesquisa foi o conhecimento e a vivência de pessoas que são assediadas com frequência pelas diversas instituições do segmento (bancos, lojas, financiadoras) e reclamam que a aposentadoria é baixa.
''Os idosos comentavam que todo mês quando recebem aposentadoria ou benefício, é comum a oferta de dinheiro, ou do crédito pré-aprovado à sua disposição. Eles também acabam sendo alvos fáceis de exploração da própria família. É importante reforçar a idéia de que a aposentadoria ou o benefício que o idoso recebe deve ser investido na manutenção de suas necessidades básicas em primeiro lugar, ou seja, em uma alimentação saudável, na prática de atividades físicas e lazer para que tenha uma boa qualidade de vida na velhice'', explica.
De acordo com a pesquisa, 75% dos entrevistados confessaram se sentir explorados quando são abordados por alguma instituição financeira. Os dados mostram ainda a existência de ''golpes'' aplicados aos idosos pelo fato de estarem fragilizados a até mesmo desconhecer procedimentos complexos e seus direitos quando lesados. ''A conclusão da pesquisa revelou que os empréstimos não revolvem o problema de acesso a bens. Concluímos também que é importante o desenvolvimento de ações que clarifiquem e orientem os idosos'', finaliza a professora.


