Londrina

Mário CésarDedicaçãoNeno na oficina improvisada na garagem: ‘De cada dois ou três carrinhos que chegam, a gente faz um’Como num jogo de quebra-cabeça, José Maria Clemente, o seu Neno, passa grande parte do ano numa oficina improvisada na garagem de sua casa, remexendo caixas e mais caixas e juntando peças de brinquedo: a cabeça de uma boneca, a perna de outra; uma rodinha aqui, uma carcaça de carrinho ali. O trabalho, que toma todos os dias da semana, é voluntário e tem como único objetivo alegrar o Natal das crianças faveladas de Londrina.
Tudo começou há cerca de oito anos. Maria de Lurdes Clemente, hoje com 59 anos, esposa de seu Neno, era voluntária do Albergue Noturno de Londrina e levava os brinquedos usados doados à entidade para o marido consertar. Não deu outra: ele gostou da brincadeira e aprimorou a técnica. Hoje, o casal ajuda a mudar a rotina miserável de mais de mil crianças, pelo menos uma vez por ano.
Os pedaços de brinquedos, que antes chegavam a casa de José Maria e Maria de Lurdes em algumas caixas, hoje chegam em caminhões. Na casa deles, todo canto é ocupado por caixas cheias de pernas, braços, cabeças, pecinhas de jogos, rodinhas e tudo o mais que um dia possa ter pertencido a um brinquedo.
‘‘Na nossa campanha não pedimos dinheiro. Mas aceitamos uma perna, uma cabeça, qualquer pedaço que possa compor uma boneca, um carrinho, um jogo. Qualquer coisa é bem-vinda’’, comenta seu Neno. A arrecadação é feita através do Grêmio de Funcionários da Caixa Econômica Federal (CEF). As doações também podem ser feitas diretamente na residência do casal.
É também o Grêmio da CEF que patrocina a recuperação dos brinquedos. Dois filhos de seu Neno e Maria de Lurdes são funcionários do banco. Um deles, Marco Antonio Clemente, é da direção do Grêmio. ‘‘Nós recebíamos os brinquedos sempre faltando uma parte e não tínhamos como doá-los daquele jeito às crianças. Como meus pais são muito habilidosos, eles passaram a recuperá-los’’, diz Marco Antonio.
Segundo ele, os valores destinados ao conserto são pequenos. Este ano, o Grêmio gastou cerca de R$ 300,00 para recuperar cerca de mil brinquedos. ‘‘O gasto não é grande. Este ano, como as doações de brinquedos para meninos foi pequena, tivemos que comprar 500 carrinhos e bolas para poder atendê-los. Tirando isso, os demais foram todos doados pela comunidade’’, completa.
Quem vê os brinquedos que chegam às mãos de Neno pode até duvidar que eles possam ser recuperados. Além de muitos deles chegarem ‘‘desfalcados’’, outros chegam riscados e manchados. O trabalho começa com a busca, de caixa em caixa, da parte do brinquedo que está faltando. ‘‘Tem uns que ficam anos esperando que chegue uma peça que lhes sirva’’, observa seu Neno. ‘‘De cada dois, três carrinhos que chegam, a gente faz um.’’
Encontrada a peça e feitos os consertos - algumas bonecas saem da oficina de seu Neno com parafusos nas pernas - é a vez do banho. Aí, quem geralmente assume a tarefa é dona Maria de Lurdes. Ela usa shampoo e condicionador nos cabelos das bonecas, lava os bichos de pelúcia e bonecos de pano com amaciante, usa aguarrás, tiner, álcool, enfim, todos os produtos que possam dar uma melhor aparência aos brinquedos.
Se nenhuma técnica for bastante eficaz, seu Neno reassume o trabalho, usando tinta e pincel. Depois de pintados, os brinquedos ganham olhos ou adesivos, com a ajuda do filho do casal Miguel Angelo, 33 anos, que faz todo o trabalho no computador.
Terminados os ‘‘remendos’’ e a limpeza, a recuperação dos brinquedos entra na fase final. As bonecas ganham vestidos novos, feitos por dona Maria de Lurdes. ‘‘Esse ano, já gastei quase 500 metros de renda e uns 65 metros de tecidos’’, contabiliza. Cada modelo é desenhado pela própria ‘‘estilista’’ Maria de Lurdes. ‘‘Essa parte é a mais difícil, mas os modelos acabam vindo na cabeça.’’
Ela ressalta que não põe roupa usada nas bonecas. ‘‘E só coloco roupas que eu gosto. Fico imaginando aquelas meninas das favelas que não têm nada delas. A boneca vai ser só delas, então tem que ser bonita.’’ Dona Maria de Lurdes costuma brincar, dizendo que agora ‘‘está tirando a barriga da miséria’’. Ela comenta: ‘‘Eu nunca tive uma boneca. Minha família era pobre e éramos em cinco filhos. Não dava para comprar brinquedo para ninguém. Hoje eu converso com as bonecas, arrumo todas, brinco com elas’’.
Só esse ano, ela já costurou para 350 bonecas. Geralmente, cada modelo é repetido em apenas oito delas - uma para cada entidade que recebe os brinquedos para distribuí-los. Para as demais, quando a roupa é igual, pelo menos a estampa do tecido é diferente. Dona Maria de Lurdes nunca foi costureira profissional. Na máquina, arrumava apenas as roupas dos seis filhos. ‘‘Mas eu sempre gostei de inventar.’’
Depois de pronto, cada brinquedo ganha uma embalagem, como se estivessem saindo da loja. Todas elas são confeccionadas e revestidas com papéis coloridos por seu Neno. Esse ano, o casal espera poder recuperar brinquedos para 1.600 crianças - ano passado foram 1.100. A única coisa que o casal lamenta é que foram poucas as doações para meninos.
‘‘As bolas são muito difíceis para recuperar e armas nós não damos’’, diz seu Neno. Ele explica que as réplicas de armas acabam estimulando a violência, coisa que eles querem ver extintas do mundo.
Além de todo o trabalho para consertar os brinquedos, o casal também fica responsável pela separação dos lotes que serão entregues às entidades. ‘‘Nós não vamos na distribuição, por opção nossa. Já ficamos bastante gratificados em saber que estamos dando alegria a tantas crianças’’, diz seu Neno. ‘‘Essas crianças que recebem nossos brinquedos muitas vezes não têm nem o que comer. Elas são muito, mas muito carentes’’, conta dona Maria de Lurdes.
O casal tem planos de ensinar tudo que aprendeu para alguém que se disponha a continuar o trabalho deles, de forma voluntária. Eles comentam que, durante esses anos, aprenderam muito sobre consertos de brinquedos. ‘‘A cada dificuldade íamos atrás e encontrávamos a solução’’, observa dona Maria de Lurdes.
A única exigência deles: a pessoa que aprender o ofício deve continuar recuperando os brinquedos para crianças carentes. ‘‘Não achamos certo todo esse conhecimento ficar só entre nós’’, dizem. Os interessados em aprender podem procurar o casal
Para eles, todo o trabalho que têm durante o ano é recompensador. Dona Maria de Lurdes ensina: ‘‘Os velhos, geralmente, reclamam de abandono, de solidão. Mas isso porque querem. Nós trabalhamos o ano inteiro e não temos tempo para nada porque há muita coisa neste mundo para ser feita’’.
Serviço: Doações de brinquedos podem ser feitas diretamente na casa do seu Neno e da dona Maria. Eles moram na rua Uberlândia, 103, jardim Coroados (zona oeste).

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