Aposentadorias emperram em Brasília
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sábado, 18 de abril de 1998
Marcos Zanatta 
Marcos NegriniTempos amargosO presidente da Abap, Ildeu Manso Vieira, e o primeiro livro extraído do diário de prisão A Associação Brasileira de Anistiados Políticos (Abap) abriu uma nova luta para garantir os direitos de mais de 2 mil anistiados de todo o País que estão com o pedido de aposentadorias excepcionais parados em repartições públicas de Brasília. A entidade quer a formação de uma comissão especial na Presidência da República ou dentro da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados para revisar e consolidar toda legislação que garante indenizar os anistiados.
O primeiro passo, segundo o delegado da Abap no Paraná, Ildeu Manso Vieira, é transferir todos os processos para a Secretaria Nacional de Direitos Humanos, órgão subordinado ao Ministério da Justiça. Para atrasar o andamento das indenizações, o governo espalhou os processos por vários ministérios, diz.
Conforme o setor de origem do anistiado, servidor público ou mesmo trabalhador da iniciativa privada, o governo mandou o processo para um ministério diferente. A pulverização da papelada por diversas pastas serve apenas para alimentar a burocracia oficial e atrasar as indenizações, acusa Vieira.
Outra cobrança da Abap é que as aposentadorias fiquem sob a responsabilidade do Ministério da Fazenda porque é um dos órgãos que tem recursos para garantir a indenização dos anistiados. O governo joga o problema de nossas aposentadorias para o INSS e depois alega que o órgão não tem recursos, explica Vieira. Estamos amparados pela Lei da Anistia e pela Constituição, mas por falta de reconhecimento, vamos propor um novo projeto.
A Abap pretende apresentar, através do deputado federal Carlos Alberto Campista (PFL/RJ), um decreto regulamentando o pagamento das indenizações dos anistiados que têm as aposentadorias excepcionais garantidas. O decreto prevê o pagamento através do Ministério da Fazenda, que deve criar um Fundo Indenizatório, com recursos de alíquotas sobre loterias, jogos em geral, bebida, fumo e artigos considerados supérfluos.
A proposta prevê ainda que os órgãos de origem dos anistiados informem ao Ministério da Fazenda os salários-bases e demais vantagens. Através de empresas do setor público e da iniciativa privada, será calculado o valor da aposentadoria especial dos anistiados, conforme os cargos ocupados e a projeção de promoções durante os anos corridos desde a prisão dos beneficiados. O decreto prevê ainda que uma comissão especial, formada por representantes das partes envolvidas e profissionais com conhecimento jurídico, encaminhará os pedidos de anistia, a serem julgados pelo Ministério da Justiça.
Vieira diz que apesar da Lei da Anistia, de 1979, os presos políticos precisam ingressar na Justiça com processos para serem anistiados de direito. A ação é o primeiro passo para qualquer outro processo a ser aberto pelo anistiado, seja para pedido da aposentadoria ou de indenização por perdas, explica. Para o anistiado se beneficiar da lei, precisa ainda de uma série de provas documentais, que requerem tempo e habilidade para serem reunidas. Por isso, segundo Vieira, dos mais de 20 mil ex-presos políticos do País, pouco mais de 10% são reconhecidos como anistiado.
Toda luta da Abap, segundo Vieira, foi ocasionada pela paralisação das aposentadorias pelo governo federal. Ele compara que, desde a Lei da Anistia de 79, o menor número de benefícios excepcionais a ex-presos políticos foi no atual governo. Apesar do presidente Fernando Henrique Cardoso e vários ministros serem anistiados e estarem recebendo suas aposentadorias, critica.
No governo José Sarney, 627 anistiados conseguiram aposentadoria. Nos dois anos de Fernando Collor foram 183 aposentadorias, e nos dois anos de Itamar Franco 896. Nos mais de três anos de Fernando Henrique apenas 35 anistiados conseguiram o benefício, lamenta ele.


