O aposentado Elcio Alves de Almeida, 42 anos, morreu ontem por complicações causadas pela miocardiopatia hipertrófica, após mais de oito meses na fila de espera por um transplante de coração. O drama da falta de doadores é bastante conhecido pela família Almeida. Quinze parentes morreram por consequência da doença e pelo menos cinco passaram pela Central Regional Norte de Transplantes, em Londrina, sem conseguir doadores.
''As pessoas preferem enterrar e deixar apodrecer os órgãos a doá-los'', constatou a professora Ingria Sproger de Almeida, 42, viúva de Elcio. O lamento é de uma pessoa experiente em relação ao problema. Ela perdeu um filho de 12 anos por não ter conseguido doador. ''Uma pessoa que resolva doar pode salvar várias vidas'', destacou.
A dor da família Almeida é traduzida em números pelas estatísticas da Central de Transplantes. Quatro pacientes esperam por uma doação de coração. A fila para recebimento de rim tem 435 pacientes e de córnea, 119. ''Para coração, não tem grande demanda porque o 'entra e sai' na fila é grande. Já a sobrevida para quem espera transplante de rim é muito maior por causa da hemodiálise'', explicou a coordenadora da central, Ogle Beatriz Bacchi de Souza.
A situação já preocupante ainda foi agravada este ano. Na média, o número de notificações de morte cerebral procedimento necessário para viabilizar transplantes de órgãos diminuiu em comparação com o mesmo período do ano passado. Foram seis notificações de potenciais doadores desde 1º de janeiro. Nenhuma resultou efetivamente em transplante. Em 2003, a média era de quatro notificações mensais.
Segundo Ogle, falta ''sensibilidade'' aos profissionais da área da saúde. ''As notificações tinham de ser rotina nos hospitais'', cobrou. Ela destacou também a importância da conscientização dos familiares para autorizarem a retirada dos órgãos.
O cardiologista Wellington Moreira, que cuidava de Elcio, explicou que a miocardiopatia hipertrófica é uma enfermidade de caráter familiar. ''É uma doença progressiva e incurável, que engrossa as paredes do coração'', destacou. Segundo ele, o transplante cardíaco é a única chance de cura.
A prioridade na fila de espera é para casos de urgência extrema. Para Moreira, o medo de aceleração da morte faz com que famílias não autorizem doações. ''A abordagem só é feita com o critério de morte cerebral'', enfatizou. Os familiares têm direito a solicitar a presença de um médico de confiança para acompanhar a verificação de morte encefálica.
A viúva de Elcio Almeida contou que o marido estava na expectativa de conseguir um doador. ''Ele estava animado com a possibilidade de transplante, apesar das dificuldades. Ele levava uma vida limitada, com dificuldade de andar. Era uma vida minguada'', afirmou Ingria. ''Se as pessoas amassem mais o próximo, meu marido teria uma segunda chance'', lamentou.

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