Albari RosaPinto (2º da esq.para dir.): desjejum de dona Armanda desde 1992Todo dia ela faz tudo sempre igual e acorda às seis horas da manhã para preparar a primeira - talvez única - refeição de aproximadamente 20 pessoas: café e pão com margarina. ‘‘Faço o que gostaria que fizessem por mim se estivesse na situação dessa gente’’, diz a professora aposentada Armanda Sabino Lopes, 72 anos, a dama dos sem-teto, desempregados e catadores de papel do bairro Alto da XV, em Curitiba.
O desempregado Israel Oliveira Pinto, 42 anos, toma café da manhã em frente à casa da professora desde 1992. ‘‘Se eu fosse pagar, era R$ 1,00 só por um xícara, enquanto aqui a gente bebe um copo grande’’, comenta. Dona Armanda já chegou a providenciar emprego para ele e até ajudou com dinheiro. ‘‘Ela arrumou uma chácara para eu tomar conta e me deu R$ 15,00 uma vez’’, lembra.
Segundo Pinto, já houve semana em que mais de 50 pessoas se juntaram no portão da casa de Dona Armanda para tomar café da manhã. Ela própria confirma: ‘‘Um dia, há pouco mais de um ano, cerca de 80 pessoas apareceram na frente da minha casa com fome e tive de me desdobrar para atender a todos’’. Naquela ocasião, a professora contou com o auxílio das empregadas Amélia Margarida, 58 anos, e Rosa Vieira, de 21, que ainda a acompanham.
‘‘É uma caridade muito grande que ela faz para a gente’’, reconhece o desenhista desempregado Josiel Barbosa, 35 anos. A professora afasta a hipótese de sua iniciativa ter inspiração religiosa. ‘‘Não dou café da manhã para pagar promessa nem me interessa quanto gasto’’, afirma. ‘‘Só vou parar de fazer isso quando mudar daqui, o que deve demorar para acontecer’’, completa, para decepção de quem teme pela sua segurança.
A vizinhança não aprova a atitude de Dona Armanda devido à concentração de desocupados no bairro. Até Amélia acha a caridade perigosa, a mesma opinião da família da professora. ‘‘Dou café da manhã há mais de 20 anos e nunca tive problema. Quando tiver, chamo a polícia’’, conclui. (D.J.)

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