Vânia Moreira
De Umuarama
Cerca de 100 crianças da favela do Parque Industrial, em Umuarama, têm almoço garantido pelo menos três vezes por semana. A refeição é servida pela aposentada Maria do Carmo da Silva, 68 anos, na casa dela. A própria aposentada prepara e serve a comida na varanda da casa, transformada num enorme refeitório com muitas mesas e cadeiras. Mãe de seis filhos e viúva há três anos, Maria do Carmo ganha apenas dois salários mínimos mensais. Gasta quase todo o dinheiro da aposentadoria com alimentos para a criançada.
‘‘Eu sempre gostei de ajudar as pessoas mais pobres do que eu’’, diz Maria do Carmo. O Parque Industrial é um dos maiores bolsões de miséria de Umuarama. Como muitas crianças batiam em sua porta pedindo comida, há dois anos Maria do Carmo começou a reunir meninos e meninas do bairro para almoçar em sua casa uma vez por semana. No início, eram aproximadamente 20 crianças. Com o tempo, o número de ‘‘convidados’’ foi aumentando e ela passou a servir almoço três vezes por semana.
A despesa aumentou e Maria do Carmo foi em busca de doações. Hoje ela recebe ajuda de empresas e de membros da Igreja Católica, a qual frequenta. ‘‘Eu não preciso mais sair em busca de ajuda. Mesmo quando estou sem dinheiro, sem estoque e sem saber se vou poder oferecer a refeição no dia seguinte, chegam doações de última hora. Nunca fiquei sem nada para oferecer às crianças’’, conta a aposentada. Ano passado, a prefeitura doou um fogão industrial, pratos e talheres. ‘‘Estava ficando difícil preparar 10 a 15 quilos de comida num fogão comum’’, justifica.
A maioria das crianças atendidas por Maria do Carmo são filhos de pais desempregados, bóias-frias ou doentes. Os irmãos Cristiana, 14 anos; Cristina, 13; Cristiano, 11; e Cristian, 10; almoçam na casa da Maria do Carmo há quase dois anos, desde que foram morar no Parque Industrial. Os pais Darci e Isabel são bóias-frias e nem sempre conseguem trabalho. ‘‘Tem dia que não temos nada para comer em casa’’, conta Cristina. Algumas crianças chegam com panelas, pedindo para levar comida para os irmãos ou os pais que estão em casa doentes. Maria do Carmo atende a todos.
A aposentada não se preocupa apenas em alimentar as crianças. Ensina regras de higiene e comportamento, religião e acompanha o estado de saúde deles. Se alguém não está bem, encaminha para as agentes de saúde do bairro. Ela também é encarregada de distribuir todos os dias 10 litros de leite para famílias carentes beneficiadas pelo Programa de Vigilância Alimentar e Nutricional.
Maria do Carmo sonha em construir uma cozinha com refeitório no bairro e oferecer almoço todos os dias para um número maior de criança. Quer também criar atividades educativas e recreativas no local para evitar que as crianças fiquem andando pelas ruas. ‘‘Eu estou pedindo ajuda da comunidade para colocar estes projetos em prática’’, adianta.
Mineira de Leopoldina, Maria do Carmo mora em Umuarama há 40 anos. Criou três filhos adotivos sempre trabalhando na roça. Segundo a aposentada, crianças e doentes sempre a comoveram. Há três anos, perdeu o marido, o carroceiro Genésio Vitor da Silva, num acidente. O cavalo disparou e ele caiu da carroça. ‘‘Nós sempre fomos muito pobres, mas nunca deixamos de ajudar a quem precisava. Se não podia ajudar com dinheiro ou mantimentos, eu oferecia meus serviços.’’Maria do Carmo da Silva ganha 2 salários mínimos por mês e gasta quase todo o dinheiro da aposentadoria com comida para a criançada
Vânia MoreiraPRATO DO DIADezenas de crianças do bairro almoçam pelo menos três vezes por semana na casa de Maria do Carmo

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