Aposentada aciona filhos por pensão
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terça-feira, 13 de maio de 1997
Luka Morais 
Mário CésarAlívioA aposentada Maria Dalben Viel, 10 filhos, 40 netos e 39 bisnetos: Estou cansada de ficar para lá e para cá. Quero viver sossegadaA aposentada Maria Dalben Viel, 84 anos, viúva, entrou com ação na Justiça contra seus 10 filhos para obter pensão alimentícia. Anteontem, um acordo firmado na presença do juiz da 1ª Vara de Família, Marco Antonio Massanero, pôs fim à ação de alimentos. Dona Maria vai receber mensalmente R$ 340,00 dos filhos e espera, com esse dinheiro e o da aposentadoria, alugar uma casa e viver sozinha. Estou cansada de ficar para lá e para cá sendo estorvo. Quero viver sossegada.
Ela conta que decidiu, no Dia das Mães do ano passado, procurar um advogado e iniciar o processo judicial, depois de tomar conhecimento sobre seus direitos. Obrigar os filhos a lhe darem uma pensão, diz ela, seria a forma de acabar com o drama que vinha se arrastando há 18 anos. Depois que meu último filho solteiro se casou, eu fiquei sem casa. Tive que ir morar na casa de outros filhos de favor.
Com 40 netos e 39 bisnetos, dona Maria conta que sempre teve um bom relacionamento com filhos, noras e genros. O único problema, ela se recorda, aconteceu recentemente quando, segundo diz, uma de suas filhas, com a qual vivia desde o ano passado, fez o seguinte comentário: Ela disse que precisava trabalhar fora e que não sabia o que fazer comigo porque haviam dito para ela que eu colocaria fogo no apartamento se ficasse sozinha.
Dona Maria resolveu então se mudar para o apartamento de outra filha, também no centro de Londrina, onde vivem 11 pessoas. Estou no quarto das meninas mas é duro porque sei que acabo estorvando, diz. Acho que uma pessoa que passou a vida inteira trabalhando tem direito de ter um canto tranquilo.
Logo depois de se casar, há 62 anos, Dona Maria começou a trabalhar na roça. Durante 30 anos lavou roupas para ajudar o marido a manter a família. Quando o esposo morreu, cinco filhos moravam com ela. Para garantir o sustento, também mantinha em casa pensão para moças.
Dona Maria conta que durante muito tempo sua casa foi abrigo para filhos de parentes. Destaca ainda o cuidado que teve com seus familiares: Minha sogra morreu na minha cama, diz. Minha mãe só não morreu em casa porque ficou boa e quis voltar para a casa dela.
Os R$ 112,00 que recebe de aposentadoria, diz ela, são suficientes apenas para cobrir os gastos com o plano de saúde e com remédios. A aposentada tem problemas de pressão e de coração.
Ressentida com os filhos - no Dia das Mães ela foi cumprimentada por apenas cinco deles, através de telefonemas -, a aposentada não esconde o constrangimento ao comentar sua decisão de mover a ação. Ainda assim, afirma: Isso é bom para que muitos filhos vejam que mãe e pai não podem ser jogados.
De acordo com o advogado Omar Salle, os filhos da aposentada têm condições de pagar a pensão. Ele revela que entre eles há estilista, autônomos, serralheiro e comerciantes. Um dos filhos foi liberado pela mãe do pagamento de pensão por não ter condições. Os demais, conforme acerto feito, vão destinar à ela parcelas que variam de R$ 10,00 a meio salário mínimo.
O coração de mãe falou mais alto e resultou num péssimo acordo, avaliou o advogado. Para Salle, a aposentada deveria receber no mínimo R$ 800,00 por mês de pensão alimentícia. Com esse valor, diz, ela poderia morar em uma quitinete e ainda pagar uma acompanhante. É o mínimo que uma pessoa que trabalhou durante tantos anos como lavadeira, criou e educou 10 filhos tem direito.


