Rio de Janeiro - ''Cadê o enxame que é a Rocinha?'', pergunta uma moradora em frente à rua vazia, cortada vez por outra por mototáxis e carros carregados com agentes do Bope. Acostumada a ver a estrada da Gávea ''mais cheia do que um formigueiro'', ela estranha o silêncio.
A madrugada na comunidade, ocupada ontem pela polícia, foi tranquila, povoada apenas pelo som constante dos blindados da Marinha e dos helicópteros que sobrevoaram a comunidade durante todo o dia.
Nem um tiro disparado, orgulha-se a polícia. No entanto, o que preocupa os moradores são as próximas noites. ''Quando vocês (imprensa) forem embora é que o bicho vai pegar'', diz X., que prefere não se identificar.
Para ela as coisas ''antes'' estavam muito bem. ''O Nem pagava o aluguel de quem precisava, dava cesta básica, ajudava as creches. Quero ver o governo fazer isso.'' A moradora referia-se à Antônio Francisco Bonfim Lopes, apontado como chefe do tráfico na Rocinha, preso na quarta-feira passada.
Já Z., 45, encara a nova fase com otimismo. ''É a primeira vez em 45 anos que vejo essa rua assim, tranquila. Ele conta que prefere levar o filho de 12 anos para passear na Barra da Tijuca, bairro da zona oeste, por medo. ''Quem sabe agora a gente consiga voltar a fazer o lanche em família por aqui. Antes não dava, eles ficavam sentados em cima no balcão dos bares com fuzil na mão''.
No entanto, ele também teme a ocupação. A sua casa foi revistada ainda no começo da madrugada de domingo. Os policiais não quebraram nada, mas tentaram levar o seu contracheque, que estava em cima de uma mesa.
Ocupação
A favela da Rocinha, na zona sul do Rio, foi ocupada pelas forças de segurança na manhã de ontem. A ocupação é o primeiro passo para a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na comunidade.
Em entrevista, o chefe do Estado Maior da Polícia Militar do Rio, coronel Pinheiro Neto, afirmou que foram ocupadas as favelas da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu.
Segundo a polícia, cerca de 3 mil homens participaram da ação - que contou com com sete helicópteros, 18 blindados da Marinha e mais sete da Polícia Militar (caveirões).
Num ato simbólico que tem se repetido nesse tipo de operação, uma bandeira do Brasil e outra do Estado do Rio foram hasteadas na Rocinha quase nove horas após a tomada da favela. O local escolhido foi a ''curva do S'', um dos pontos mais movimentados do morro. O ritual foi repetido no Vidigal.
Agradecimento
Consciente do impacto que a pacificação da Rocinha terá em sua popularidade, o governador do Rio, Sérgio Cabral, foi ao centro de operações parabenizar o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, ainda pela manhã. Ele contou ter telefonado para a presidente Dilma Rousseff e para o ex-presidente Lula, a quem creditou o início da série de ocupação de favelas no Rio com suporte de tropas federais.
A UPP da Rocinha será a 19 do Rio. A favela é uma das maiores do Rio, e sua pacificação é considerada chave para a política de segurança da gestão de Sérgio Cabral.

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