Apologias - Apolo Theodoro
Warren NabucoAqui se trabalhaJovenil Inácio dos Santos e o produto do seu trabalho: 21 sacos de arroz aos 84 anos bem-vividosQUEM PLANTA
SEUS MALES
ESPANTA
Que mineiro não come sem arroz, não é novidade pra ninguém. Mas também não precisa exagerar, né seu Jovenil? Que é isso, homem, tá achando que vai faltar arroz na praça e já tá se prevenindo? Ou plantou pra vender a fim de arranjar uns troquinhos? Conta, meu velho, a palavra é sua:
- Eu não precisava fazer isso, mas faço porque gosto de trabalhar e também porque, pra mim, é como se fosse um divertimento. Gosto muito de plantar, me sinto bem e me dá uma satisfação muito grande. E, também pela minha idade... Não posso ficar parado, tenho que fazer alguma coisa senão fico entrevado.
Esse é Jovenil Inácio dos Santos, esse mesmo que está aí todo faceiro e orgulhoso sentado em cima dessa pilha de sacos de arroz. Sabe quantos sacos estão empilhados embaixo dele? São 21, de 50 quilos cada - cinco da safra passada mais 16 da safra deste ano. Ele é um pequeno proprietário quebrado ou um sem-terra querendo mostrar serviço? Nada disso.
A presença daquela pilha de sacos de arroz ocupando quase toda a sala de um confortável sobrado da rua Montevidéu, parque Guanabara, zona sul de Londrina, é fruto do trabalho desse pintor aposentado num terreno baldio de 3.500 metros quadrados localizado no jardim Vale do Reno, na mesma região. Ele plantou 18 quilos de arroz - colheu 850.
E se tal produção, de tão pequena, vai sequer aparecer nos relatórios oficiais; se desprezível do ponto de vista financeiro; se não vai ganhar menção honrosa das autoridades como exemplo de produtividade, por outro lado, ganha contornos de grande feito não só pelo exemplo que carrega em si, mas, principalmente, porque Jovenil tem 84 anos, idade em que muita gente, ou já partiu desta pra outra, ou está aí na vida apenas aguardando aparecer uma vaga no céu ou no inferno.
Dono de uma disposição quase juvenil, Jovenil fez tudo sozinho e no braço: foi no cabo da enxada, durante cinco meses, das seis da manha até ao meio-dia, que ele preparou toda a terra e, matraca nas mãos, fez todo o plantio. Sem esquecer das três carpidas feitas até a colheita para não deixar o mato crescer, além das outras três ou quatro capinadas, entre uma safra e outra, pra não deixar praguejar o terreno.
E, como não é um plantador de arroz qualquer, desses que não cuidam da terra, Jovenil exibe as mãos calejadas - Olha aqui, ó - e conta que já arrancou, uma a uma, também no cabo da enxada, toda a soqueira. Não pode esquecer a soca; ela resseca o terreno.
Mas vamos prosear um pouco mais com esse homem que aprendeu a plantar arroz, atolado até quase os joelhos, nas produtivas vargens do município de Faria Lemos-MG, onde nasceu, a fim de descobrir qual é o combustível que o deixa com essa disposição de menino, num tempo em que muita gente quer ver o mundo acabar em barranco pra morrer encostado.
Apologias - Quando o senhor começou a plantar nesse terreno baldio?
Jovenil - Faz quatro anos: nos dois primeiros eu plantei amendoim, mas não dava nada, então, no ano passado, mudei para o arroz e colhi 22 sacos, seis a mais do que este ano. Com isso, veja só, já vai pra quase três anos que não compro arroz.
Apologias - O senhor acha que outras pessoas deveriam seguir o seu exemplo e cultivar os inúmeros terrenos baldios da Cidade?
Jovenil - Algumas pessoas já fazem isso. Eu mesmo conheço um senhor que plantou num terreno maior que o meu e colheu 120 sacos de arroz. Se o povo que não está trabalhando plantasse nesses terrenos, garanto que colhia pelo menos pra comer. Em Londrina tem muitas áreas boas para plantar. O problema é que ninguém quer trabalhar, quer achar plantado pra pegar.
Apologias - E pode plantar qualquer coisa?
Jovenil - Milho, não, milho não adianta, carregam tudo ainda verde. Tem um amigo meu que plantou e não colheu uma espiga.
Apologias - O que mais o levou, além do divertimento e da necessidade de movimentar o corpo, a plantar em terreno baldio? Por necessidade é que não foi, certo? E o dono do terreno, não se incomoda?
Jovenil - É porque não sei ficar parado de tudo, não dá, tenho que fazer alguma coisa, minha casa fica pequena quando fico parado. Então, como não posso mais mexer com tinta, que é a minha profissão, resolvi plantar nesse terreno. Não conheço o dono do terreno, mas ele não deve achar ruim, não, paga menos IPTU e se livra das capinas.
Apologias - Desde que a pessoa não esteja doente de cama, idade então não é desculpa pra quem quer trabalhar?
Jovenil - Pessoa de idade, se ficar parada, fica entrevada. Eu, graças a Deus, não tenho nada de doença, não bebo, não fumo e acho que toda essa minha disposição é por causa do trabalho. Trabalhar, fazer qualquer coisa na vida, esse é o meu conselho para todos, principalmente para os idosos. Velho não pode parar; se parar acostuma e depois tem preguiça até pra andar.
Então, gostaram do pique juvenil do Jovenil? É, esse mineirinho leva jeito de que vai emplacar os 100 anos fácil, fácil... Duvida? Pois então veja o espírito com que ele leva a vida e tire a sua conclusão:
- A vida é boa. Não pode reclamar dela porque quem reclama da vida acaba esmorecendo e isso não é vantagem nem pra mim, nem pro senhor, pra ninguém. O negócio é trabalhar, sair, passear, viajar... Eu faço tudo isso. De vez em quando vou pra Campo Grande, pra Cuiabá, visitar minhas filhas e um filho que moram lá. É, meu filho, 84 anos não é brincadeira, mas eu estou muito bom ainda, vivo muito contente com a minha idade... Depois, não adianta reclamar mesmo, né?
Não é rasgação de seda não, viu Neco, mas nós vamos construir o pavilhão da seda no novo terreno que a Sociedade Rural adquiriu
Governador Jaime Lerner, discursando ontem na abertura da 37ª Exposição Agropecuária e Industrial de Londrina
Trocadalhos
do carilho do
Wilson Duarte
Admirador desta coluna, Wilson Duarte mandou fax relatando uma história do dia em que ele acordou meio confuso, meio ao contrário, daquele jeito que é mas não é. Ele conta que tomou café e fui subindo a rua SENANAVES SOUZADOR, indo até a SANTA CÓRDIA DE MISÉRIA CASA para visitar um amigo. Desci até o PORTÉRIO DO CEMITÃO, onde vi a colisão de um CUSCÃO E UM FORCEL. Como havia policiais no local e eu, sem ao menos o CERTIMENTO DE NASCIDÃO, caí fora. Fui para o centro e, em frente das LOGIANAS AMERICOJAS, encontrei-me com um amigo, grande jogador de FUTELOL DE SABÃO e que estuda na FACULCINA DE MEDICULDADE. Acabamos tomando uma COCA LADA BEM GECOLA, comendo um SANDUELA DE MORTANDICHE, acompanhado de um bom papo sobre futebol, uma vez que ele torce pelo CLUBE DE REGAMAS VASCO DA GATO, embora tenha sido criado por um tio fanático pela PONTE PINAS DE CAMPRETA. Papo vai, papo vem, chega um amigo residente em SANTO ANTINA DA PLATÔNIO, acompanhado do irmão que reside em CORNÓQUIO PROQUÉLIO - ambos vindos do Rio de Janeiro, onde tinham assistido ao jogo BOTAMENGO x FLAFOGO. Com isso, acabei me lembrando da vez em que fui ver um treino do BOTA PRETO DE RIBEIRÃO FOGO a fim de ver um jogador para o nosso Tubarão. Conversamos muito, lembramos de gente famosa como o ESTANISPRETA PONTISLAU, MAREICHOTO FLORIAL PEIXANO E QUINTUVA BOCAÍNO. Foi um dia de muitas recordações. Um abraço.
Pois é, Warte Duilson, aqui na Redação, por INCREÇA QUE PARÍVEL, o companheiro Jair Gazolli garantiu que, se o VICINO CELESTENTE estivesse vivo, cantaria um TINGO ARGENTANO em sua homenagem.
NO AR
Se o contrato diz que, no final da concessão, os bens utilizados na prestação do serviço serão revertidos ao poder concedente, não estaria a TCGL vendendo ônibus que já pertencem ao município? Quem puder que responda.
LIGAÇÕES
PERIGOSAS
Um dia isso vai acabar!, pensava ela sempre que o via chegar bêbado, exalando um cheiro insuportável de álcool misturado a perfume barato de alguma vagabunda. Porém, como já apanhara dele algumas vezes, não insistia muito nas cobranças para evitar novas pancadarias, mas que esperasse: uma hora ela ainda se vingaria. Num sábado, por volta de uma da tarde, ela esperando-o para o almoço, o telefone tocou.
Alô, bem, não precisa me esperar para o almoço que hoje é despedida de solteiro de um amigo e está tendo futebol e churrasco o dia inteiro numa chácara pra lá da universidade. Lá pelas 8, 9 horas da noite eu volto, tudo bem? Ah, você vai ao shopping? Então aproveita e compra umas cuecas pra mim, tá bom? tchau! Qualquer coisa me ligue no celular.
A fome dela até passou. O desgraçado, agora, nem em casa vem mais. Comprar cuecas..., pensou, e ficou arquitetando um plano de vingança. Enquanto isso, da choperia de onde ligara, o marido comenta em voz alta com os amigos: Essa minha mulher é uma coitada... Agora, o papai aqui vai pegar a gatinha, levar pro motel e... Tchau, fiquem aí chupando o dedo, provocou, e saiu sem perceber que esquecera o celular sobre o balcão.
Em casa, a mulher ainda não havia saído do lado do telefone. Subitamente, como se algo lhe viesse à mente, pegou o aparelho e ligou para o marido. Na choperia, quando o celular tocou, os amigos ficaram receosos de atender. E se for a mulher dele, o que a gente vai dizer?, perguntavam-se uns aos outros quando Vadinho Bico Doce, antigo namorado dela, pegou o pequeno aparelho e se retirou para o fundo da choperia ante o silêncio e a curiosidade geral.
Alô! Não, não é o seu marido, não, é o Vadinho. Oi! Mas você está chorando, meu amor? Não faça isso, esse cara não merece, saiu daqui agora dizendo que ia para um motel com uma gatinha... E Bico Doce foi caprichando nas palavras, ora para detonar o rival, um devasso que vivia pendurado em vagabundas; ora adocicando ainda mais a voz pra dizer que nenhuma delas chega aos seus pés.
Terminada a ligação, Bico Doce, para decepção geral, disse apenas que é uma outra mulher que ele sacaneou e que está vindo aqui pra encontrar com ele louca da vida. Dito isso, bebeu mais uma cerveja com os amigos, pagou a conta e foi embora.
Eram mais ou menos oito horas da noite, quando o telefone tocou na casa do casal. O marido, que já chegara, atende mal-humorado, mas, do outro lado da linha, sua mulher o tranquiliza: Calma, bem, estou ligando pra tirar uma dúvida: lembra das cuecas que você pediu pra comprar? Estou aqui com uma na mão, mas é samba-canção, você usa? É tão bonitinha, o vendedor está aqui do meu lado e disse que o pênis fica soltinho... Posso comprar?
Ele, machão com sempre, estrilou - Que conversa de vendedor é essa, compre logo essa cueca e vem embora que eu já estou com fome -, mas autorizou. Do outro lado da linha, na cama do motel onde estavam, olhos brilhando de vingança e desejo, a mulher tira a cueca samba-canção de Bico Doce, deitado ao seu lado, e se despede do marido: Já tou indo, bem, e pode jantar que eu já comi um cachorro-quente e... (olha para o amante já pronto pra outra) estava tão gostoso que vou comer outro. Tchau!
E então, Lerner:
tá mais bonita
ou mais gostosa?
Mário CésarSaúde, governador!Durante visita à Exposição, Lerner faz pausa para uma cervejinhaNão sabia que o senhor gostava de Antárctica, governador! Anhan... Então temos alguma coisa em comum, hein? Bem que desconfiava, essa barriguinha nunca me enganou. E, depois dessa golada, o que achou: tá mais bonita, ou mais gostosa? Mas, até que saia dessa espumosa dúvida, deixa eu lhe contar uma cena que o senhor não viu e que aconteceu ontem na porta de entrada da sede da Sociedade Rural do Paraná.
Entrada entupida de gente, eis que chega um mulatinho com uma receita na mão, se dirige ao primeiro engravatado que encontra pela frente com cara de autoridade e dá a tradicional mordida - Estou com a minha filha doente e... - na maior naturalidade deste mundo.
Quanto custa o remédio?, pergunta o engravatado. Custa 20 reais, meu senhor, responde o pedinte. O engravatado, sem mais conversa, saca uma nota de 10 do bolso; pede mais 10 para um outro engravatado ao lado e dá ao pedinte, que arregala uns olhos deste tamanho e agradece:
Muito obrigado! Mais olha só, eu tô conhecendo o senhor. O senhor é o Jaime Lerner, não é? Pensa que eu não vi na televisão sua filha levar um copo de leite para o senhor no hospital? Muito obrigado seu Jaime Lerner, eu sou o Baiano, mas deixa eu ir embora comprar o remédio para a minha filha.
Não sei não, governador, mas acho que o Baiano estava a fim mesmo era de puxar o saco, já que o confundido, Segismundo Morgenstern, seu secretário especial para o desenvolvimento educacional, não parece com o senhor nem de costas. Ah, antes que eu me esqueça, governador: tá mais bonita ou mais gostosa? Não precisa responder, mesmo porque, pra quem está no poder, tudo é mais bonito e mais gostoso, não é mesmo? Saúde!





