Com mil raposas incendiárias! Morreu Dom Pablo. Nascido Paulo Ferreira da Silva, Dom Pablo faleceu ontem depois de longa enfermidade. Com ele vão a irreverência, o humor, a poesia e os traços de um artista popular que, além de tudo isso, era o nosso maior filósofo. De botequim. O corpo está na Acesf e será enterrado hoje às 8 horas no cemitério São Paulo.







JC, ABANDONADO E SEM O...
Caparam a imagem de Cristo lá na Universidade!




Arquivo FolhaAntesA imagem quase concluída: Cristo Libertador



Foi assim que a notícia chegou na Redaçao. E a informaçao dizia ainda que o ‘‘castrado’’ estava jogado num depósito da Prefeitura da UEL; que a imagem era a parte principal de uma escultura feita pelo artista plástico Henrique Aragao, de Ibipora, mestre em arte sacra, e que havia sido trazida do Museu Padre Carlos Weiss. O jeito foi conferir com o prefeito do Campus, professor Luis Navolar:
- É verdade. Essa imagem estava jogada aí pelo Campus há muitos anos, no tempo, desde administraçoes anteriores, e a encontramos já mutilada, nao só da genitália, mas também faltando outras duas peças, a pomba do Espírito Santo e o Sol. Mas ninguém conseguiu identificar o mutilador. Nao sei as razoes de ter acontecido isso, mas alguém nao gerenciou corretamente
Mas o professor Navolar falou mais: disse que o reitor Jackson Proença Testa e, principalmente, a vice-reitora Nitis Jacon, ao se inteirarem da existência de tal obra no Campus, e do crime praticado contra ela, decidiram recuperá-la. E, para tanto, nao só já foi comprado todo o material, como também já houve acerto com o restaurador: o próprio Henrique Aragao que se prontificou a restaurá-la de graça. Segundo Navolar, só nao foi definido ainda o local onde será construído o nicho para abrigá-la.
Prestes a ser reparado - Navolar disse que o material de reconstruçao e restauro já foi comprado e será entregue na próxima semana para Aragao - só resta explicar agora a dolorosa e humilhante via-sacra da imagem do ‘‘Cristo Libertador’’, nome dado por Henrique Aragao à escultura, desde o dia em que ela saiu de Ibipora rumo à cidade de Colorado, também no Norte do Paraná, próximo da divisa com Sao Paulo, encomendada que foi pela Igreja Católica daquela cidade.
1ªestaçao
Warren NabucoDepoisA imagem na UEL: à espera da restauraçao
Pesando 380 quilos, toda em latao dourado e ricamente trabalhado, com 4,70 metros de altura, a imagem do ‘‘Cristo Libertador’’, composta por 3 peças, o próprio Cristo, um Sol simbolizando Deus e uma pomba representando o Espírito Santo, saiu de Ibipora, em meados de 1975, rumo a Colorado. Em outubro daquele mesmo ano, debaixo da maior pompa, com a presença do entao bispo de Apucarana, Dom Romeu Alberti, e de milhares de fiéis, foi feita a inauguraçao da imagem na Igreja Nossa Senhora Auxiliadora. A alegria era quase geral: escondidos entre as colunas do Templo, alguns fariseus, tal qual os de Jerusalém com o verdadeiro Cristo, começaram a tramar contra a ‘‘escandalosa’’ e máscula imagem do ‘‘Cristo Libertador’’.
2ªestaçao
Reitor do Instituto de Filosofia da Diocese de Apucarana, o padre Alberto Martins, na época em Colorado e reponsável pela encomenda feita a Henrique Aragao, conta que quem mais se incomodou com a escultura foram ‘‘alguns machoes’’ de Colorado. ‘‘Acho que eles nao queriam concorrentes’’, brinca o padre, lembrando que o ‘‘Cristo Libertador’’ queria marcar ‘‘um momento forte de uma teologia nova, marco de referência de uma religiao diferente que se comprometia com a libertaçao do povo’’. Por isso, ele revela que a imagem ‘‘tinha mesmo o objetivo de provocar, questionar toda uma cultura’’, mas reconhece que ‘‘as pessoas mais conservadoras, com uma concepçao religiosa mais de aparência, moralistas, tinham dificuldades em entender essa obra de arte’’.
3ªestaçao
E foi só padre Alberto deixar a Igreja de Colorado para os ‘‘machoes’’ voltarem a pressionar o novo padre, agora com sucesso. A história repetiu-se às avessas: a imagem, ao contrário do verdadeiro Cristo, que expulsou os vendilhoes do Templo, foi expulsa do Templo Católico de Colorado. Levada para o local destinado ao coro, ali, já com as partes desintegradas, ficou jogada por muitos anos, debaixo de poeira e cocô de passarinho. Por essa ocasiao, a genitália, motivo da ira dos moralistas, já estava coberta com um pano sujo, embora, na concepçao original, como se vê na foto, nada ficasse à mostra. A intolerância, como aconteceu naquele dia no Gólgota, mais uma vez venceu.
4ªestaçao
Já na década de 80, ao saber da triste sina do ‘‘Cristo Libertador’’ em Colorado, a museóloga Marina Zuleika Scalassara, na época respondendo pela direçao do Museu Padre Carlos Weiss, entrou em contato com a Diocese de Apucarana, à qual pertence Colorado, para pedir ao bispo que a imagem fosse doada ao museu, o que foi feito em 1987, através de um termo de transferência. No entanto, reassumindo as funçoes de diretor do museu, o professor Olympio Westphalen nao gostou de ver aquela enorme escultura ocupando quase todo o espaço de uma das salas. Entao, já em 1988, aproveitando que as instalaçoes do museu foram cedidas integralmente para a realizaçao da Bienal do Livro, Westphalen se livrou do ‘‘Cristo Libertador’’ enviando-o para o departamento de patrimônio da UEL, no Campus. O resto da história, todos conhecem.
5ªestaçao
Entre os envolvidos, a museóloga Marina Zuleika Scalassara nao quis se manifestar sobre o assunto que lhe trouxe alguns aborrecimentos, embora só estivesse pensando em salvar uma obra de arte que ela considerava da maior beleza. Ainda mais que havia sido esculpida por Henrique Aragao, artista que ela considera um dos bambas da arte sacra. Zuleika conta que, embora já com as peças separadas, a escultura foi enviada completa para o Campus da UEL, inclusive com as genitálias no lugar. ‘‘Tenho muita tristeza por ela ter chegado a esse nível de abandono, mas faço votos que, com a restauraçao, ela ocupe um lugar digno de ser admirada por todos’’, disse Zuleika, ainda um tanto aborrecida com o episódio.
6ªestaçao
‘‘Confesso que o erro inicial foi do Museu; essa escultura nao poderia ter ido para lá. Quando voltei das férias e a encontrei ocupando quase um terço de uma das salas, já nao gostei. Lá nao tem espaço suficiente para ela e, mesmo que tivesse, aquilo nao é obra para um museu histórico, se ainda fosse pro Museu de Arte...’’, comenta o professor Olympio Westphalen, se eximindo de qualquer responsabilidade em relaçao aos danos sofridos pelo ‘‘Cristo Libertador’’, ônus que ele transfere para o departamento de patrimônio da UEL, que tratou uma obra de arte como se fosse uma sucata qualquer que nao merecesse qualquer cuidado, desmazelo que passou pelos dois reitores que antecederam o atual e só foi resolvido agora porque a vice-reitora Nitis Jacon se empenhou na questao.
7ªestaçao
Debochado, o artista plástico Henrique Aragao diz que o padre de Colorado, responsável pela retirada da imagem, ‘‘só pode ser bicha ou tarado sexual’’. Sobre o episódio, ele diz que, conhecendo a mentalidade dominante na época, jamais faria uma obra para escandalizar, tanto é que teve o cuidado de esconder a genitália do Cristo, com uma das asas da pomba que simboliza o Espírito Santo, justamente para se proteger dos moralistas. ‘‘Se eu nao fizesse isso, ninguém ia conseguir rezar. Já imaginou as beatas vendo aquele membro enorme...’’, brinca Aragao. Quanto às agruras e à capaçao sofridas pelo seu ‘‘Cristo Libertador’’ aqui na UEL, Aragao atribui o fato à ‘‘pobreza intelectual imensa de algumas mentes invejosas’’ existentes na instituiçao.
E paramos na 7ª estaçao, metade das percorridas pelo verdadeiro Cristo a caminho do calvário. Porém, se algum filho de Deus quiser completar as 14 estaçoes a fim de pôr mais alguma luz sobre as desventuras do capado ‘‘Cristo Libertador’’, o espaço está aberto e, com certeza, ninguém será crucificado por isso.



Doa a quem doer

Ivo AkioSe andas de olho em alguma das minhas partes, sossegue, posso ser inteirinho seu. Calma meu amigo, não desmunhequei, é jeito de expressar, estou apenas lhe dizendo que sou um doador de órgãos. Mas não um doador comum, desses que se limitam a doar rim, córnea, coração: eu, caso queiram, vou doar tudo. Até a alma, se alguém se interessar por ela e, óbvio, se já estiverem fazendo tal tipo de transplante na hora do meu desenlace. Mas só depois morto, certo doutor?
Porém, antes de me abrir todo para vocês, que tal falar daquela carimbada - ‘‘Não sou doador’’ - que querem dar na carteira de identidade de quem não concorda em doar seus órgãos após a morte? O que você acha? Será que alguém vai ter coragem de enfrentar fila, funcionário público mal humorado, só pra levar essa inútil carimbada?
Da minha parte, acho que é sofrer à toa. Pense bem: de que vai valer essa inscrição no documento se ela só vai ser usada uma vez apenas na sua vida, ou pior, no dia da sua morte, quando um olho a mais ou um rim a menos já não faz a menor diferença? E quem é que te garante que na hora da morte você vai estar com a identidade no bolso?
Pois é, bastou o governo federal meter o bedelho no assunto para ninguém mais se entender no caso das doações de órgãos. O que, aliás, era de se esperar, pois, se entende de doações - a Vale, ainda não ‘doada’, mais outras estatais já vendidas a preço de compadres estão aí pra confirmar -, de órgãos o governo não entende nada. Vide os decadentes, custosos e ineficientes órgãos públicos que já mataram muita gente... De raiva.
Mas se não vou e não aconselho ninguém a levar a tal carimbada, se gostaria de ver os doadores se multiplicarem mil vezes mil, nem por isso vou doar meus órgão assim, sem mais nem menos, pra qualquer um. Não fará jus a um osso sequer qualquer receptor que tenha oprimido, violentado, maltratado ou humilhado alguém - a esses, como castigo, vou deixar o cheiro do meu chulé e um outro cheiro, aquele, pior ainda.
Fora esses, todos os demais receptores estarão aptos a levar uma lasquinha da minha carcaça. No entanto, para que minhas partes não sejam disputadas a tapa na hora da partilha e, ainda, para que as pessoas não sejam enganadas quanto à qualidade dos órgãos doados, deixo aqui algumas informações que futuramente poderão ser úteis aos interessados.
Meu fígado, por exemplo: com certeza, deixaria o receptor na mão no primeiro porre pós-operatório. Ou você acha que eu o doaria para quem não gosta ou não pode com o álcool? Além do mais, acostumado a altas rodadas de cerveja, meu fígado jamais suportaria a humilhação de passar seus últimos dias na barriga de um sóbrio, encarando uma roda de chazinho e bolacha. Um conselho: não o pegue porque, de vingança, ele te tornaria uma pessoa muito azeda.
Já o pulmão, depois de tanto resfriado, gripe, catarro, poeira; tanto gelo, sereno, fumaça, tosse; depois de tantas outras coisas, por certo, se doado, não aguentaria um espirro. Sem contar que, na hora de ser retirado, poderia machucar o coração, esse nobre órgão que gostaria de doar intacto pois, de coração machucado, você sabe, o mundo anda cheio.
Feitas tais ressalvas - outras virão mais adiante -, que meus olhos sejam doados a quem nunca viu o mundo, para que aprendam a ver aquilo que não enxergaram comigo; que meus cabelos enfeitem a cabeça de um careca de quem elas nunca gostaram; que meu nariz dê o prazer do olfato a quem nunca sentiu o próprio cheiro.
E se não recomendo a minha torta e acidentada boca para ninguém, para os sisudos, no entanto, gostaria de doar o meu sorriso que, se não é bonito e estridente como o do meu amigo Galdino de Macedo, em compensação nunca levou a vida a sério o que, convenhamos, é o máximo que se pode exigir de um sorriso.
Quanto à minha língua, desistam, essa não vou doar: acostumada a finas lambanças, tenho medo de que seja utilizada em tarefas menos nobres como, por exemplo, lamber sabão, selo, bota e outras lambidas piores ainda. Já o pescoço, que me virou a cabeça tantas vezes, gostaria que fosse doado a quem pudesse realizar o seu velho sonho: botar uma gravata, principalmente borboleta, prazer que sempre lhe neguei.
Pescoço abaixo, exceto os órgãos já excluídos, todos os demais estão à disposição dos receptores, até o meu intestino, caso o interessado tenha o seu preso e queira trocá-lo por um que funciona várias vezes ao dia sem falhar. Aos maliciosos, àqueles que querem saber se as partes pudendas também estão entre os órgãos a serem doados, antes que eu me esqueça: órgão é a sua e, pela ofensa, não vai poder passar a mão na minha quando chegar a hora da partilha.
Quanto ao membro da pudica parte da frente, se for do seu agrado, fique à vontade, embora, dependendo do tempo que isso vier a ocorrer, ele já possa não estar prestando pra nada, a não ser pra dar a algum gato esfomeado que você, caro receptor, tenha em casa. E, finalizando o meu espólio corporal, deixo o meu cérebro para qualquer miolo mole que dele se interessar. Antes, porém, um alerta: além de te obrigar a pensar, esse desmiolado só pensa bobagens, besteiras iguais a essas que você acabou de ler agora.

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