Apoio emocional do outro lado da linha
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de dezembro de 2015
Aline Machado Parodi <br> Reportagem Local 
Para algumas pessoas, as festas de fim de ano significam momentos de alegria e confraternização. Mas, para outras, afloram os sentimentos de solidão, saudade, frustrações e angústias. As dores emocionais ficam mais latentes e muitas pessoas recorrem ao apoio do serviço do Centro de Valorização da Vida (CVV). A organização sem fins lucrativos, que oferece gratuitamente apoio emocional e prevenção do suicídio pelo telefone, prevê um aumento de cerca de 20% na procura pelo serviço nos últimos dias de 2015.
A taxa é a mesma dos últimos anos, mas, de acordo com o voluntário Carlos Correia, em anos conturbados como 2015 pode haver um aumento acima da média. "Quando chega o período festivo do final de ano, existe um senso comum de que todos ficam felizes, mas isso é uma falsa percepção. E o pior é a pressão social às pessoas que não sentem essa felicidade toda."
Situações como estar longe da família, perda do emprego ou simplesmente a insegurança sobre o futuro podem desencadear sentimentos de ansiedade, tristeza, medo. "Nessa hora fica fácil se desestabilizar, deixar a pressão interna falar mais alto e estourar, como uma bexiga de ar colocada sob o sol forte", exemplifica Correia.
O CVV existe há mais de cinco décadas no Brasil. Em Londrina foi implantado há 35 anos. São 19 voluntários que doam quatro horas de seu dia, uma vez por semana, para ouvir as pessoas. Até 2012, o serviço funcionava 24 horas por dia, mas com a diminuição dos voluntários, hoje o atendimento é feito das 14h às 22h30. "Para funcionarmos 24 horas seriam necessários no mínimo 30 voluntários", explicou a voluntária Valdete Ramanauskas. A entidade faz, em média, 300 apoios por mês. "Se funcionássemos na madrugada, os apoios seriam maiores", afirma Valdete.
O CVV oferece apoio emocional às pessoas que sentem a necessidade de conversar. "As pessoas querem alguém para ouvi-las", diz a voluntária. Os voluntários não dão conselhos e nem fazem julgamentos a respeito do que ouvem. "Às vezes, você fica tão submerso no problema e, ao dividir com alguém, você encontra a resposta."
A base do serviço é o sigilo e os voluntários passam por um curso e um estágio preparatório antes de assumir um turno no CVV. Wilton Miwa, de 44 anos, fez o curso em novembro e já está dando apoio sozinho. Ele voltou recentemente de uma temporada de quase sete anos no Japão, conheceu o CVV e decidiu ser voluntário. "É uma experiência interessante. Ajuda a ter flexibilidade, você aprende a ouvir e não julgar as pessoas", conta.
Apesar do pouco tempo de entidade, Miwa percebeu que algumas pessoas recorrem ao Centro de Valorização da Vida com frequência. O perfil de quem procura o serviço é bem variado. São pessoas solitárias, que perderam um familiar, usuários de drogas ou que simplesmente querem alguém para conversar. "Às vezes, as pessoas só querem desabafar. Outras ligam e ficam em silêncio e daí digo que estou à disposição quando ela se sentir à vontade para falar. É um jogo de paciência. Mas é gratificante quando ela desabafa", conta.
A carga emocional com a qual os voluntários lidam é muito grande e cada um desenvolve mecanismos para não carregá-la consigo. "Quando entro no turno, faço um zeramento. Exercícios de respiração. Deixo os meus problemas do lado de fora. E quando desligo o telefone também procuro zerar tudo e não levar nada comigo", explica o voluntário.
O CVV Londrina atende pelo telefone 141 e, em breve, deve ter um 0800. O atendimento também pode ser feito pelo site www.cvv.org.br, através de chat e Skype. A entidade está programando um novo curso de formação de voluntários para o fim de janeiro. Os interessados podem ligar para (43) 3356-6411 para obter mais informações. Como a entidade não tem fins lucrativos, todas as despesas são compartilhadas pelos voluntários.


