Apoio é fundamental na adoção de bebê
PUBLICAÇÃO
domingo, 10 de janeiro de 1999
Lucinéia Parra 
Há mais de 20 anos convivendo com a realidade de famílias que adotam crianças, a psicóloga Juana Ester Kogan de Souza Dias, formada pela Universidade Nacional de Buenos Aires, foi uma das responsáveis pela criação de um grupo de apoio à adoção em Curitiba - ainda sem nome - e se prepara para desenvolver o mesmo trabalho em Maringá.
A dificuldade de unir pessoas que vivem toda problemática da adoção, segundo ela, é um das dificuldades para a formação destes grupos no Brasil. Apesar de ser um dos países do mundo onde a população mais tem o hábito de adotar crianças, o Brasil só conta com aproximadamente 25 grupos de apoio à adoção.
O número é considerado baixo pela psicóloga, que classifica o grupo de apoio como a mais importante terapia para os casais que querem adotar e para aqueles que já têm filhos adotivos, mas enfrentam dificuldades de relacionamento com os mesmos na medida em que eles vão ganhando a maturidade.
Defensora da adoção legal, Juana Ester diz que os grupos de apoio podem ajudar as famílias a enfrentar o caminho dos demorados processos na Justiça. A falta desses grupos e a morosidade dos processo, segundo ela, acabam levando a maioria dos casais a praticar a adoção à brasileira, feita longe dos olhos da Justiça.
No Brasil, conforme a psicóloga, boa parte das adoções de crianças é feitas à brasileira. A família recebe a criança da mãe biológica logo após o nascimento do bebê. Este procedimento ocorre porque em muitas varas de Família instaladas no País o processo de adoção definitiva só é concluído em um ano.
Isto significa que a criança que é entregue para adoção em uma hora é adotada com um ano. Em alguns lugares, pela atitude dos juízes mais envolvidos com esta questão e sensíveis a este problema, o processo é um pouco mais rápido, afirma.
Pelo procedimento legal, a criança entregue para adoção fica depositada, aos cuidados do Estado, em instituições assistencias, até a determinação do juiz para o encaminhamento à família interessada em adotá-la. Mas, para a psicóloga, a demora pode trazer sérios problemas à criança.
Juana Ester menciona biografias de psiquiatras que estudaram casos de crianças adotivas, entre elas do inglês Renê Spitz, autor de uma pesquisa feita durante a Segunda Guerra Mundial com bebês abandonados. O psiquiatra concluiu que a carência de contato de pele nos primeiros meses de vida pode levar ao suicídio do bebê. O bebê entra em estado de auto-agressão pela perda da mãe e pelo trauma do parto. O bebê entra numa espécie de anestesia generalizada e para de comer e para de respirar.
Para a psicóloga, o contato com a mãe nos primeiros meses de vida é fundamental por ser ela o único ser que foi preparada durante nove meses para ter um vínculo com a criança. Entre mãe e filho haverá um tipo de relação incompreensível e inexplicável para qualquer outra pessoa. Mas quem tem um filho sabe que isso ocorre.
Segundo a psicóloga, a mãe substituta deve iniciar o vínculo nos primeiros meses de vida do bebê adotivo. Mas quando o bebê fica em instituições assistencias até o término do processo adotivo, o vínculo afetivo é prejudicado. É claro que as pessoas nas instituições vão tratar muito bem do bebê. Vão alimentá-lo, pegá-lo no colo eventualmente, mas não vão ter com este bebê o vínculo emocional, espiritual e total que uma mãe biológica ou substituta poderá ter.
Apesar da morosidade do processo de adoção, os grupos de apoio são favoráveis a este caminho. Defendemos o meio legal porque da outra forma é crime e no futuro poderá trazer consequências ao casal e ao filho adotivo, diz a psicóloga. Na opinião dela, não são os casais que devem mudar a forma de adotar. É a Justiça que deve repensar o processo de adoção.
Uma das alternativas para forçar a mudança, conforme a psicóloga, é a união de forças dos casais que adotam bebês, que teriam a ajuda dos grupos de apoio no trabalho de contatos entre eles. Ela mesma admite, no entanto, que a formação de novos grupos de apoio é difícil, porque geralmente os pais adotivos têm medo de se revelar.
Este medo é compreensível porque ao revelarem publicamente que são pais adotivos, o que para eles pode ser um orgulho e uma fonte de muito prazer, a sociedade ainda tem preconceitos, tem questões da ordem do inconsciente com a criança adotiva, explica.
O preconceito da sociedade existe, de acordo com a psicóloga, porque geralmente as crianças adotadas vêm de relações extramatrimoniais, ou de gravidez que não aconteceram dentro de uma situação legal. Este preconceito vai surgir feito fantasia, com muita culpa para os pais adotivos em algum momento da vida da criança.
A falta de conhecimento sobre a carga biológica desconhecida do filho adotivo é outro motivo de preconceito e ansiedade por parte dos pais adotivos. Somado ao preconceito dos próprios pais que surgem inevitalmente em forma de fantasia, ainda existe o preconceito da sociedade. Muitos pais, conforme Juana Ester, não se revelam como adotivos por terem medo de que os filhos, ainda na idade infantil, sejam maltratados na escola.
Outra dificuldade, conforme a psicóloga, é a revelação para o filho adotivo. Isso é tão importante que um dos critérios de seleção de casais nas varas de Família é se eles estão disposto a revelar. Se não estão dispostos é porque não elaboraram bem a questão da adoção para eles mesmos.
Para ela, não revelar a adoção aos filhos é uma falsa fantasia do conhecimento. Porque a criança é que estava ali no momento do abandono, então ela sabe. Isto está registrado e ela vai viver isto de diferentes formas em sua vida.
Sobre o momento certo da revelação, Juana Ester afirma que os pais vão saber quando é chegada a hora, com base na experiência de vida entre eles. Segundo a psicóloga, atualmente a maioria dos casais revela ser pais adotivos. Ainda assim, podem ocorrer erros, conforme alerta. Há, por exemplo, casais que preferem dizer que os filhos adotivos têm os pais biológicos mortos, achando que desta forma a criança sofrerá menos.
As experiências, basicamente de casais americanos que são os que mais adotam e que primeiro começaram a produzir biografias sobre o tema, é de que o mais adequado é falar a mais absolutamente verdade; da maneira e ao tempo que a criança possa ouvir e entender.


