Apesar de mais caro e de ser constantemente criticado por possuir menos vitaminas do que o leite pasteurizado (de saquinho), a venda do leite longa vida (de caixa) vem aumentando ano a ano em todo País. Os representantes de cada um desses setores da indústria se contradizem. Enquanto uns defendem que o leite pasteurizado mantém melhor as características próprias do leite, representantes do longa vida afirmam que a exposição do produto ao calor – necessário nesse processo – não chega a afetar a qualidade do produto.
Seja como for, a verdade é que as vendas do leite longa vida aumentaram em quase 1.500% nos últimos 10 anos, passando de 184 milhões de litros em 1990, para 1 bilhão de litros em 1995 e chegando a 3,4 bilhões de litros vendidos no ano passado. As vendas do leite pasteurizado do tipo mais comum, o C, caíram de 3,65 bilhões de litros em 1990 para 2,65 em 99. E a previsão, de acordo com o diretor-técnico do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria Estadual de Agricultura, João Carlos Koehler, é de que o consumo do leite em caixa aumente em mais 8,8% este ano.
A situação chegou a tal ponto que desde 1998 a Associação Brasileira das Indústrias de Leite Pasteurizado estão fazendo uma campanha, com cartazes, folders e afixação de uma faixa nos sacos de leite afirmando a superioridade da qualidade do leite pasteurizado sobre o longa vida. A campanha foi lançada em São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Em Curitiba também pode-se comprar sacos de leite de marcas desses Estados com a tarja, informando que, além de ter mais vitaminas, o leite pasteurizado contém lactobacilos vivos, ao contrário do outro tipo de leite.
O médico pediatra Marcos Polo Rauth é um defensor do leite pasteurizado. Segundo ele, as proteínas e vitaminas existentes no leite natural são produtos termolábeis, ou seja, são destruídas quando colocadas em alta temperatura. O processo de pasteurização é feito a 75 graus, eliminando bactérias mas não destruindo as vitaminas e proteínas, o que não acontece no processo de elaboração do longa vida, que é aquecido a mais de 130 graus, destruindo essas substâncias. ‘‘As pessoas estão sendo enganadas porque, no mínimo, 30% dos elementos existentes no leite não estão no longa vida’’, diz.
O presidente da Associação Brasileira de Leite Longa Vida, Almir José Meireles, contesta a afirmação, mostrando artigo escrito pela nutricionista Rebeca Carlota de Angelis. De acordo com ela, todo alimento perde suas características originais depois de manuseados. Meireles lembra, ainda, que a quantidade de vitaminas existente no leite é tão pequena que sua redução pouco significa em relação ao total consumido por uma pessoa diariamente. Ele também contesta o argumento sobre a inexistência de lactobacilos vivos no leite de caixa. ‘‘Leite não tem lactobacilo. Quem tem é o iogurte’’, rebate.
A nutricionista Carlota contemporiza, ao afirmar que ‘‘o leite é excelente fonte de nutrientes e tanto a pasteurização quanto a ultrapasteurização (processo do longa vida) não destroem essa característica. Ao contrário, preservam-na’’. Em um ponto, entretanto, todos concordam: o longa vida traz vantagens à indústria. A embalagem em caixa resulta em menos perdas do que o leite em saco.

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