Apenas 11% dos alunos da UFPR são carentes
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quinta-feira, 10 de agosto de 2006
Maigue Gueths<br>Equipe da Folha 
Curitiba A Universidade Federal do Paraná (UFPR) tem apenas 10,9% de alunos populares, ou seja, estudantes que cursam a universidade e moram em bairros de periferia, têm pais sem curso universitário e cuja família vive com até 3 salários mínimos. O sistema de cotas implantado em 2005, que garante 20% das vagas ofertadas no vestibular para afrodescendentes e 20% para alunos oriundos de escolas públicas, vem aumentando essa faixa de estudantes na instituição, mas ainda não conseguiu tirar a UFPR da média nacional.
Dos cerca de 22 mil alunos matriculados em cursos de graduação, 1.589 (7,2%) foram aprovados nos vestibulares de 2005 e 2006 dentro da cota reservada a estudantes de escolas públicas e 854 (3,9%) pela cota de afrodescendentes, o que significa 11% dos universitários. A UFPR tem, ainda, dez vagas para indígenas. Esse índice pode ser ainda menor, se for levado em conta os casos de desistência.
Pesquisa nacional feita pelo projeto ''Conexão de Saberes'', iniciativa existente em 30 universidades públicas e cujo objetivo é aumentar as chances de acesso e permanência da comunidade popular nas universidades, mostra que em média apenas 10% dos alunos de instituição pública de nível superior são de origem popular.
''O sistema de cotas é hoje um instrumento que permite democratização do acesso universitário, sobretudo para afrodescendentes e indígenas, e que pode garantir a redução das desigualdades sociais, já que esas pesoas não teriam essa oportunidade de outra forma'', diz Jorge Barbosa, pró-reitor de Extensão da Universidade Estadual Fluminense (RJ) e coordenador Nacional do Programa Conexões de Saberes.
Barbosa está em Curitiba participando do 1º Seminário Local Conexões de Saberes/UFPR e 1º Fórum de Estudantes de Origem Popular, que acontece até amanhã, na UFPR. No evento, o ingresso e permanência dos alunos populares nas universidades será tema de debates que envolve não apenas professores de instituições de outros estados, mas também 26 estudantes populares da UFPR e alunos do ensino médio de uma escola estadual de Cerro Azul (97 km ao norte de Curitiba), localizado no Vale Ribeira, e alvo do trabalho dos universitários.
Pelo projeto, as universidades selecionam no mínimo 25 estudantes populares e fornecem Bolsas Extensão no valor de R$ 300. Em contrapartida, os alunos realizam trabalhos em comunidades carentes. ''Com iso o aluno garante sua permanência e contribui com a comunidade, com sua própria história de vida'', diz a coordenadora do Conexões da UFPR, Miriam Angelucci. No caso da UFPR, o trabalho está sendo desenvolvido no Vale do Ribeira, com 26 estudantes dos mais variados cursos.
''Faltam propostas que dêem melhores condições de estudos para os alunos do ensino médio público, para que eles possam passar em uma universidade pública'', diz Miriam. Pesquisa feita no ano passado com seis mil estudantes da UFPR mostrou que o setor com maior número de estudantes populares é o de Ciências Sociais Aplicadas (26%), seguida pelo setor de Ciências Exatas (23,7%). O setor de Biologia apresentou o menor índice, com apenas 3,1%.
De acordo com Miriam, a procura por Ciências Sociais Aplicadas pela maioria dos estudantes se deve pelo fato dos cursos serem à noite. ''Fica claro já que a maioria dos estudantes populares trabalha. Os cursos considerados de elite, como Medicina, por exemplo, são os menos procurados'', explica. Este ano uma nova pesquisa será realizada com os calouros, de modo a traçar o perfil dos alunos que entram na UFPR.


