Apeart não recebe verbas há 5 anos
Silvana Leão
De Londrina
Cerca de cinco mil jovens e adultos paranaenses que estão sendo alfabetizados através da Associação Projeto de Educação do Assalariado Rural (Apeart) correm o risco de, em breve, ver os sonhos de descobrir os mistérios da palavra escrita e de conseguir um certificado de conclusão da 4ª série irem por água abaixo. O convênio com o Estado, que garantiu nos últimos seis anos o repasse de verbas para pagamento de educadores e cursos de capacitação, foi renovado em junho, mas até agora nenhum centavo foi liberado.
Segundo o presidente da Apeart, Francisco Moreno, o convênio prevê a liberação de 10 parcelas de R$ 86 mil por mês até o final do ano. Como os pagamentos são retroativos a março, já são cinco parcelas atrasadas até agora. No dia 29, a Associação que está sediada em Londrina realiza uma assembléia com educadores, coordenadores e supervisores das várias regiões onde o projeto já está implantado para discutir os caminhos a ser tomados.
Moreno afirma que as negociações para a renovação do convênio com a Secretaria de Educação começaram em janeiro, mas a assinatura só aconteceu em junho. No ano passado já houve alguns atrasos na liberação dos recursos, mas no máximo em dois meses a situação estava resolvida. Segundo ele, o argumento do Governo tem sido a falta de recursos.
A Apeart, que está presente atualmente em 60 municípios do interior do Paraná, tem como principal objetivo a alfabetização com o resgate da cidadania. As turmas estão instaladas na periferia das cidades e áreas rurais, locais que não são atendidos pelo Estado na área de educação. Moreno explica que um dos projetos desenvolvidos pela Associação, visando a alfabetização de jovens indígenas (inclusive com implantação de 2º grau em algumas áreas) não chegou a ser implantado.
As pessoas que trabalham na Apeart vivem nas próprias comunidades onde lecionam e sabem da importância do projeto. Muitos continuam trabalhando por idealismo, mas alguns já estão desistindo. Quem está conseguindo se manter é porque tem outra fonte de renda, diz Francisco Moreno.
Uma das educadoras que se desligaram da Apeart esta semana é Gislaine Evangelista Gobbo, do distrito de Lerroville. Embora dê aulas há dois anos para a comunidade rural que mora nas propriedades próximas, ela passou a fazer parte da Apeart em fevereiro deste ano, e nunca chegou a receber o salário de R$ 137,00.
Gislaine começou a dar aulas em casa, por iniciativa própria. Depois de dois meses conseguiu autorização para usar as instalações da Escola Municipal Maria Aparecida Oldemberg, que fica na Fazenda Nogueira, distante três quilômetros da Fazenda Escócia, onde o marido de Gislaine é administrador. O carro que eu uso para ir dar aula e o material é fornecido pelo dono da fazenda onde moro. A educadora sai de casa todos os dias às 18h30 e volta às 22h15.
Dou aula para 20 alunos, que este ano iriam receber o certificado da 4ª série. Eles estão desesperados com a possibilidade de não conseguirem o certificado. Segundo Gislaine, as duas educadoras de Tamarana que também trabalhavam no projeto já pediram seu desligamento. Elas agendaram para hoje uma reunião na escola para discutir alternativas para que os alunos não percam o ano. Foram convidados o secretário de Educação do município, José Dorival Perez, o vereador Renato Araújo e o prefeito Antonio Belinati.
A secretária de Educação do Estado, Alcyone Saliba, informou ontem à Folha, através da assessoria de imprensa, que pretende regularizar a situação com a Apeart até o final deste mês.





