Lúcio Horta
De Londrina
Um ‘‘no break’’ (equipamento eletrônico que permite a utilização de computadores durante queda de energia elétrica) do Hospital Universitário de Londrina (HU), aparentemente em boas condições de uso, foi vendido anteontem num ferro-velho da Avenida Brasília (zona norte) como sucata. Quem faz a denúncia é um técnico em equipamentos eletrônicos, que não quis se identificar.
Ele disse que além do no break – que tinha como número de identificação 76097, precedido pela inscrição FUEL (de Fundação Universidade Estadual de Londrina) –, também comprou no ferro-velho baterias e um aparelho que identificou como de controle de laser. Tudo era do HU e custou apenas R$ 10,00.
Ainda segundo o técnico, junto com o equipamento estava um laudo de avaliação técnica da empresa Assistence Informática, datada de 30 de agosto de 1999, declarando que o problema seriam os ‘‘transistores integrados’’, que estariam queimados. O laudo observou ainda que a empresa fabricante (Wysystem) encerrou as atividades e não há peça de reposição disponível no mercado paralelo. Por isso, conclui o laudo, a solução seria a troca do aparelho. A empresa ainda apresentou um orçamento de um no break novo, que custaria R$ 350,00.
O orçamento foi encaminhado para a Divisão de Manutenção e Equipamentos do HU, ligado à diretoria-administrativa. O técnico em eletrônica informou ainda que as duas baterias (da marca Yuasa, para equipamentos médicos ou alarmes, por exemplo), que comprou no ferro-velho e que seriam do HU, também estavam ‘‘seladas’’, em condições de uso, assim como um aparelho de controle da intensidade do laser. Nesses casos, porém, não havia laudo de avaliação técnica.
‘‘Quando vi que esses equipamentos funcionavam logo pensei: estão jogando dinheiro fora, isso é um atestado de burrice. E esse dinheiro sai do nosso bolso’’, criticou.
A história surpreendeu o diretor-administrativo do HU, Lelbe Luiz Franciscone. Ontem ele disse esperar que o técnico que fez a denúncia encaminhe o no break para uma nova perícia. Caso seja comprovado que o equipamento estava em condições de uso, a assessoria jurídica do HU pode processar a empresa de assessoria técnica. ‘‘Até agora, para nós, essa empresa era confiável’’, atestou, lembrando que a Assistence Informática já fez este ano 27 trabalhos para o hospital.
Com todos os documentos em mãos, Franciscone explicou que o no break foi comprado pelo hospital em outubro de 1993 e até fevereiro deste ano nunca tinha passado pela assistência técnica. Foi quando o HU teve uma queda de energia e o aparelho quebrou. O conserto foi realizado por uma empresa de Cambé, que trocou a bateria, transistores e uma placa driver. O preço do serviço foi R$ 104,00.
Em agosto, o no break voltou a apresentar problemas. Foi feita então uma nova consulta a duas empresas do cadastro do HU para realizar o conserto e somente a Assistence respondeu. Depois da análise técnica, a empresa sugeriu a troca do aparelho. Franciscone ressalta que a compra do novo aparelho ainda não foi feita porque, como a instituição é pública, exige processo licitatório. Mas, por causa do laudo, o no break acabou considerado sucata.
O diretor do HU explicou ainda que toda a sucata do hospital é encaminhada para a Divisão de Fiscalização de Patrimônio da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Essa divisão, por sua vez, repassa a sucata para a Associação de Cidadania Pró-Servidores da UEL, que angaria fundos para ajudar funcionários mais carentes com cestas básicas. O lote de sucata foi vendido pela divisão segunda-feira para o Ferro-Velho Quintino, onde o técnico em eletrônica acabou adquirindo o no break.Técnico que diz ter adquirido a unidade em ferro-velho afirma que está em boas condições de uso; direção do hospital se surpreende
Mário CesarCONFIANÇAO diretor-administrativo do HU, Lelbe Franciscone: aparelho (detalhe) foi comprado em outubro de 1993

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