O nascimento do primeiro filho, há 27 anos, transformou a vida da londrinense Aparecida de Lourdes Favoretto Grade, 50 anos, que a partir do momento em que percebeu que o bebê era surdo abraçou a causa das pessoas com o mesmo problema e nunca mais deixou de lutar por elas. Com o apoio do marido, o advogado José Carvalho Grade Neto, Aparecida decidiu cursar magistério e, três anos depois, já com o diploma na mão, buscou treinamento em Curitiba na área de deficiência auditiva.
Na época, ela já era mãe de mais uma filha, hoje com 24 anos, com o mesmo problema: surdez. ‘‘Procurei fazer magistério, treinamento e estágios, inclusive no Iles (Instituto Londrinense de Educação de Surdos), para ficar bem próxima dos recursos disponíveis à educação dos surdos e trabalhar as necessidades dos filhos’’.
Mas o contato de Aparecida com pessoas surdas vem de muito antes, quando ela ainda era criança. Quatro primos com o problema exigiam dela sensibilidade para poder se relacionar com os parceiros das brincadeiras de infância. Por isso, quando concluiu o treinamento em deficiência auditiva e foi trabalhar como estagiária, ela não encontrou dificuldades para atuar nas áreas inclusive de estimulação precoce e maternal.
‘‘Nessas áreas tive a oportunidade de ter um contato muito forte com pessoas surdas e seus familiares’’, lembra. Ainda assim, Aparecida sentia a necessidade de fazer mais. Convidou a mãe, a sogra, as irmãs e algumas primas para participar das atividades do Iles na condição de voluntárias. ‘‘Era uma forma de conseguir que a minha família tivesse participação direta na educação dos meus filhos’’.
A busca desse objetivo incluiu também os amigos de Aparecida e José. Ela diz que sempre fez questão de incluir no círculo de amizades pessoas com algumas qualidades: ‘‘Sempre fiz questão que as pessoas fossem amigas, teriam que ter afinidade e proximidade com os meus filhos’’.
Os esforços de Aparecida e de seus parentes pela educação e integração social dos surdos fez com que a casa da família virasse uma espécie de referência para pessoas necessitadas de informações sobre o problema. Foi então que ela decidiu, com a ajuda da prima Aparecida Batistella Lima, fundar uma entidade.
‘‘Convidei oito professoras especializadas, alguns pais de surdos e junto com a minha prima fundamos a Associação de Pais e Amigos dos Deficientes Auditivos, que é mantenedora do Centro Londrinense de Atividades para Surdos. Mas como esse trabalho voluntário exige muita dedicação e persistência, restamos hoje somente eu e a minha prima’’.
Aparecida é presidente da entidade, que funciona na Rua João XXIII, número 591, na região central da cidade, em frente da praça da Associação Odontológica de Londrina. A direção da associação, segundo ela, não impede que a luta pela causa perca a naturalidade. ‘‘Pelo contrário, é um complemento da minha vida. Além disso, meus filhos sempre me pedem para eu nunca deixar de trabalhar com as pessoas surdas’’.
Em casa, diz Aparecida, os resultados da luta têm sido gratificantes. Alexandre, o filho de 27 anos, foi atleta de natação e ainda hoje disputa campeonatos pela categoria dos masters. Ele cursou educação física e faz estágio na Universidade Estadual de Londrina (UEL), em um projeto que beneficia surdos.
Como atleta, Alexandre representou o Brasil por sete vezes nas Olimpíadas dos Surdos, competindo em países da Europa. Foi também como atleta que Alexandre, viajando para o exterior, conheceu pessoas surdas de diferentes partes do mundo e aprendeu idiomas. O rapaz fala inglês, domina o italiano e tem conhecimento especial da língua alemã.
‘‘O esporte ajuda na integração do ser humano. Foi através do esporte que o Alexandre fez esses intercâmbios. E especialmente para os surdos há facilidade de fazer amigos em outros países, porque eles têm universo, hábitos, pensamentos e costumes próprios. É quase uma cultura diferente’’, explica Aparecida.
A filha Janaína, de 24 anos, também praticou natação e vôlei. Ela já tentou vestibular para o curso de veterinária e atualmente dedica-se ao dom de desenhar e pintar.

PERFIL
Nome:
Aparecida de Lourdes Favoretto Grade
Profissão:
Professora
Especialidade:
atendimento a portadores de deficiência auditiva
Qualidade:
dedicação e persistênciaPaulo WolfgangFamiliaridadeA professora Aparecida de Lourdes Favoretto Grade, em uma das salas do Centro de Atividades para Surdos: contato íntimo com o problema. Abaixo, ela se comunica com grupo de participantes da entidade, que confecciona peças para o NatalWalter Ogama

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