Curitiba – Eles assumiram o amor incondicional e selaram o pacto com um longo e viscoso gole de cerveja. Ficaram juntos com vontade de cuspir o quinhão do santo, mas não o fizeram pelo temor – igualmente incondicional – da desaprovação. Se encontravam pela terceira vez, desde que esbarraram na porta da mercearia próxima ao ponto de ônibus. Sentiram, como nunca, que haviam encontrado a felicidade à venda nas capas de revistas.
Se olharam com um meio sorriso. Ela, faltando o molar esquerdo. Ele, com o canino prateado e um pouquinho de gosma verde sobrevivente do jantar anterior resplandecendo.
Deram-se as mãos e trocaram confidências. Ela queria ser aeromoça, vencer o medo da altura mais alta que já estivera: a cobertura do CCI, prédio que ostentava longos 28 andares no centro da cidade. Ele queria abrir uma oficina mecânica própria. Trabalhar sem patrão.
Trocaram o primeiro beijo, tentando fazer pose de artista. Não se encaixavam direito. A mesa, um pouco bamba, fazia barulho entre eles, ameaçando desabar. Ainda assim, arriscaram planos para o dia seguinte: um novo encontro, dessa vez ao anoitecer. Afinal, tinham que seguir à risca os exemplos da novela e das revistas que reproduziam finais felizes.
A cerveja acabou. E se foram. Cada um para o ponto de ônibus que os levaria de volta à realidade. Ela, secretária de uma firma de ferrolhos. Três filhos já em idade escolar (mas um fugia sempre, não gostava da professora). Ele, soldador, morando com sete irmãos e a mulher, que não podia parir.

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