Lúcio Flávio Moura
De Foz do Iguaçu
Especial para a Folha
Mães de crianças carentes portadoras de deficiências decorrentes de paralisia cerebral estão sendo obrigadas a utilizar transporte coletivo convencional para levar os filhos até a Escola Melvin Jones de Educação Especial, da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), no centro de Foz do Iguaçu.
Dos 277 matriculados, 15 apresentam o problema de paralisia cerebral, que as impede de andar e de usar cadeiras de rodas não adaptadas. Até o ano passado, os deficientes tinham à disposição uma van, cedida pelo Instituto de Transporte e Trânsito de Foz do Iguaçu (Foztrans). Este ano, o serviço foi suspenso.
‘‘Eles alegaram que com o novo Código de Trânsito, a van teria que sofrer as adaptações, mas até hoje não foi colocado outro veículo à disposição’’, conta Aldeisa Marques, diretora da escola.
Segundo algumas mães de deficientes, a van circulava superlotada e não supria a necessidade da escola. Elas dizem que o veículo, de dez lugares, chegou a transportar 13 pessoas, entre pais e alunos, o que provocava demora e desconforto na viagem.
A Folha apurou que a Apae de Foz é a única entre as cidades-pólo do Estado que não conta com ônibus para tranporte de deficientes. Na cidade, a entidade tem três unidades e conta com apoio da prefeitura em outras áreas, como a cessão de funcionários e a doação de merenda escolar. ‘‘Precisamos de pelo menos dois ônibus’’, disse Vivien Maria Diniz, coordenadora geral da Apae em Foz.
Como paliativo, a Foztrans intermediou com as quatro empresas que operam o transporte coletivo, a doação de 64 passes por mês para cada aluno. A coordenadora acredita que o problema poderia ser resolvido imediatamente pelas empresas de ônibus. ‘‘Se eles cedessem estes ônibus, nós poderíamos nos mobilizar e conseguir junto aos pais recursos para o combustível e a manutenção’’, sugere.
As donas de casa Sônia Maria da Silva, 33 anos, e Elizete Pereira de Matos, 40, moradoras do Porto Meira, região pobre na zona sul da cidade, são as que mais torcem para que o poder público ou os empresários se mobilizem para resolver o problema.
As duas se conheceram em um ponto de ônibus (ver texto ao lado) e têm histórias semelhantes. Ambas não contam com os maridos em casa para ajudar na educação dos filhos deficientes e alegam que não podem trabalhar, já que não têm onde e com quem deixar os filhos pela manhã.
O marido de Sônia é pescador em Ayollas, interior do Paraguai. O de Elizete é pedreiro e trabalha em uma obra em Curitiba. ‘‘Ele ajuda com o dinheiro, mas o pior a gente passa sozinha’’, diz Elizete. Tiago, de 10 anos, pesa 25 quilos. Tem paralisia cerebral desde os oito dias, que segundo Sônia, sua mãe, é fruto de negligência médica. Bruna tem seis anos e pesa 20 quilos. É paralítica desde os oito meses. As duas crianças frequentam a escola da Apae e são carregadas nos braços quando têm que sair de casa.
A Folha tentou contato telefônico com José Ferreira dos Santos, diretor da Foztrans, por quatro vezes durante a tarde de ontem, mas não obteve retorno.

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