Apae dá aula de cidadania no cemitério
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quinta-feira, 31 de março de 2005
Guilherme Gouveia<br> Reportagem Local 
Jaguapitã Quadra seis. A vassoura passa rente em uma sepultura ainda suja. A lápide, num preto puxado pro cinza, está coberta por folhas e esconde a identidade de quem descansa embaixo dela. O brilho das peças de bronze insiste em continuar oculto, intimidado talvez pelo desgaste do tempo. Algumas flores, murchas, jogadas no canto desde a última visita, também ajudam a alimentar o aspecto de abandono. Aos poucos, no entanto, esse ar de esquecimento dá lugar a um ambiente limpo e acessível. Com uma escova em uma das mãos, água e sabão em outra, o estudante Arinaldo dos Santos Júnior, 23 anos, se ajoelha e esfrega com força para remover a sujeira do túmulo. É o Projeto Tumbalacatumba, iniciativa da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Jaguapitã (46 km ao norte de Londrina), que é realizado duas vezes por semana no cemitério da cidade.
Atualmente, nove alunos portadores de necessidades especiais participam dele, desde a compra de materiais de limpeza até o controle de estoque. O entusiasmo e a alegria de trabalhar em um local nada hospitaleiro são poucos os que se submetem a esse serviço são a marca registrada da equipe. ''Vair tirar foto? Olha aqui, acabamos de limpar esse. Posso ficar em cima dele?'', brincou um dos alunos, ao recepcionar a reportagem que chegava no cemitério. Eles usam botas, luvas e manuseiam os equipamentos da faxina com destreza de veteranos. Dentro de pouco tempo, o serviço começará a ser oferecido a famílias da cidade. ''Por enquanto, eles estão na fase de aprendiz. Nossa intenção, daqui um tempo, é que sejam autônomos, com condições de tocar o próprio negócio'', contou o professor André Ricardo Marcelino, 30, coordenador da equipe.
Quando o programa estava apenas no papel, para acabar com o medo de ''fantasmas'', como os próprios alunos disseram, o professor procurou apagar da cabeça deles a lenda que cemitério é sinônimo de lugar mal assombrado. ''Contei algumas histórias, procurei levá-los até o cemitério e mostrar que nada disso existe. Alguns deles até visitaram o túmulo de parentes'', disse o professor. ''Foi nessas brincadeiras que surgiu o nome do projeto, o Tumbalacatumba'', prosseguiu.
Outro estudante, João Ferreira de Souza, 15, sempre gostou de mexer com água. Tirar o excesso de sabão das sepulturas, depois que os companheiros passam uma ou duas mãos de bombril e lavam as lápides, é sua função predileta. Durante a conversa, revelou que já sonhou algumas vezes com fantasmas. ''Era um bichão, estava atrás de mim lá no cemitério'', contou.
A equipe do Tumbalacatumba conta também com um especialista em lustrar peças de bronze. É o mais baixinho da turma. Leandro Pereia da Silva, 14, tem ainda um senso de humor incomum na escola. ''Tá vendo aquele alí? (apontando na direção do colega, curiosamente, o mais alto dos nove), ele já pensou em sair do projeto porque tem medo de cemitério'', disse, provocando risos na turma toda, e um certo contrangimento no colega de classe. Leandro é o responsável por finalizar a faxina dos túmulos. Com tudo limpo, e seco, entra com sua flanela para dar brilho em tudo que for metal. ''Gosto de deixar tudo brilhando.''
O projeto funciona há quase dois meses, seguindo o conceito de equipes-móveis desenvolvido pela Apae de Brasília. A metodologia é bem flexível e pode ser aplicada em outras atividades, como jardinagem, limpeza de condomínios e oficinas de marcenaria. ''Temos o desejo de ampliar nosso projeto, com a implantação de equipes-móveis trabalhando com jardinagem e organização de festas'', revelou o professor.
Para ele, mais do que desenvolver um projeto de inclusão sócio-econômica, ver seus alunos participando com alegria de uma atividade diferente e até certo ponto lúdica é a parte mais importante. ''É recompensador. No começo, a gente via tudo sujo, sem cuidado, hoje, com o trabalho deles, está tudo limpinho. A satisfação é grande.''


