Apae completa 35 anos de fundação
Silvana Leão
De Londrina
Uma luta incessante para acabar com o preconceito e fazer valer os direitos previstos em lei. Em resumo, este é o trabalho desenvolvido pela Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Londrina, que acaba de completar 35 anos de fundação. Uma rápida visita ao prédio localizado na Avenida Robert Kock, na Vila Operária (zona leste), porém, mostra que as atividades, assim como os problemas enfrentados pela entidade, vão muito além.
A Apae começou com um grupo de pais que tinha dificuldades em colocar os filhos em escolas e a ajuda de alguns amigos. Na época não havia lei que protegesse os portadores de deficiência, era tudo feito na base da boa vontade da comunidade, mais no caráter social do que educacional, explica o presidente José Carlos dos Reis.
Ele lembra que, historicamente, as crianças com deficiências físicas e mentais sempre foram marginalizadas, vítimas de chacotas ou piedade. Hoje a situação melhorou um pouco, mas ainda há casos de famílias que escondem a criança excepcional da sociedade. Este tipo de comportamento é mais comum na classe média, afirma Reis.
A própria Apae, presente atualmente em dois mil municípios brasileiros, evoluiu, firmando cada vez mais seu perfil de escola que oferece atendimento integral às crianças, de acordo com as necessidades de cada uma. O grande estímulo à mudança no comportamento da sociedade e das próprias autoridades veio em 1988, com a criação da lei nº 7.853, onde está previsto que as crianças portadoras de deficiências têm direito a frequentar escolas regulares como todas as outras.
O problema agora é fazer a lei sair do papel. Só na Apae de Londrina, que atende 234 crianças, há 80 aguardando vaga. É muito triste quando somos procurados por mães de bebês e não podemos recebê-los por falta de estrutura, diz a diretora-técnica da instituição, Ana Cássia Jorge Cestari. Ela explica que quanto mais precoce os trabalhos de estimulação, melhores os resultados.
A diretora lembra que nos últimos anos aumentou em aproximadamente 80% o número de alunos na Apae. Enquanto isso, o Estado não aumenta o valor da verba repassada através de convênio há mais de oito anos. Se não fosse a ajuda da sociedade, todas as instituições de Londrina estariam fechadas, observa José Carlos dos Reis, acrescentando que atualmente a Apae sobrevive à custa de promoções e campanhas, responsáveis pela manutenção de toda a estrutura (como psicólogo, médico, fisioterapeuta e terapeuta ocupacional).
Outro diferencial da instituição é a falta de rotatividade, uma característica das escolas regulares. Os mesmos alunos permanecem conosco durante vários anos, explica Ana Cássia. O ideal, de acordo com a diretora, é que fossem criados mais núcleos de atendimento aos portadores de deficiência.
A Apae hoje luta em várias áreas, buscando a igualdade de tratamento às crianças deficientes: assistência social (hoje só têm direito a aposentadoria aqueles que fazem parte de família com no mínimo quatro pessoas com renda mensal de no máximo um salário mínimo); saúde (além de não pagar os técnicos destas instituições, o SUS não realiza trabalho preventivo para evitar as deficiências); trabalho (realização de cursos de qualificação profissional aos portadores de deficiência e preparo da sociedade para recebê-los no mercado de trabalho), educação (escola para todos, sem distinção) e direito à acessibilidade (fim das barreiras arquitetônicas).
Na opinião do presidente e da diretora da Apae, o governo tem falhado no trabalho de prevenção às deficiências. Eles lembram que nem todos os hospitais realizam o teste do pezinho, embora o procedimento, que detecta a fenilcetonúria e hipotireoidismo, seja obrigatório por lei.
Além disso, têm aumentado muito os casos de crianças vítimas de paralisia cerebral causada pela falta de oxigenação no cérebro, quando o bebê passa da hora de nascer, diz Ana Cássia.





