Aos 91 anos, Pedro vai se casar
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quinta-feira, 19 de abril de 2007
Adriana Ito<br>Reportagem Local 
''Ela é responsável por mim, e eu por ela.'' Com essa frase, o aposentado Pedro Monteiro, sem perceber, dá a fórmula para o sucesso de seu relacionamento com dona Ivone Cavalcanti da Silva. Os dois vivem juntos há 11 anos, e a relação vai ser sacramentada hoje, na Paróquia São José Operário, no Jardim Leonor (Zona Oeste de Londrina). A idade avançada (Pedro tem 91 anos e Ivone, 72) não foi obstáculo para que eles resolvessem se casar em uma celebração coletiva, juntamente com outros cinco casais.
''Essa história serve para mostrar que não importa a idade. O amor está aí e eles deixam fluir naturalmente. É muito bonito'', avalia o padre Antônio Jorge Naufel, que vai realizar a celebração. A vizinha e madrinha de casamento Joana Gorini concorda. ''É linda a história deles. Eles já sofreram bastante na vida, e agora vivem com muito amor, muita tolerância. São um exemplo para muitos casais de hoje.''
A história de amor dos noivos começou por um acaso. Viúvo e com os 10 filhos já adultos, Pedro havia alugado um cômodo da casa de Ivone para morar, mas precisou sair quando ela ficou viúva, em 1994. ''Pedi pra ele sair, porque não ficava bem. As pessoas iam achar que a gente estava dormindo junto'', justifica Ivone.
O seu futuro marido, então, passou um tempo peregrinando pelas casas dos filhos, mas não conseguiu se estabelecer. De volta a Londrina, Pedro foi aconselhado por um vizinho a ajudar a cuidar do filho adotivo de Ivone, que é deficiente mental e tinha acessos de violência. E foi assim que o casal começou a dividir o mesmo teto. ''No começo, ela tinha vergonha de sair às ruas, e eu falava que não tinha nada'', diverte-se.
A convivência foi aproximando os dois, que hoje são só elogios um para o outro. ''Ele é bastante forte, muito bom, e não tem nada que deixe ele nervoso. Quero que fique toda a vida assim.'' ''Eu sou pobre, mas quero tão bem a ela que falo pra comprar o que quiser comer, que eu arrumo uns trocadinhos. Porque ela come muito pouco.'' E assim, cada um ao seu jeito, trocam declarações de amor.
''Quando ela sai, eu fico olhando toda hora no portão pra ver se ela volta'', revela Pedro. ''Meu filho precisa tomar 12 remédios todos os dias. Quando vou ao Centro buscar os medicamentos, preciso ligar de lá pra dizer que estou bem, que o médico chegou, e que já estou voltando pra casa'', conta a futura esposa, acrescentando que os dois vão juntos fazer compras, de mãos dadas. ''No meu aniversário, ele fala que não tem dinheiro para comprar presente, que vai me dar depois, mas dá um abraço, beija'', salienta. Ambos fazem questão de ressaltar que, em todo esse tempo juntos, nunca brigaram. ''Eu preciso ter paciência com ele e ele comigo, porque a gente depende um do outro'', ensina a noiva.
Esta não é a primeira vez que o casal tenta firmar matrimônio. Há uns cinco anos, eles manifestaram a intenção de se casarem, mas foram impedidos por um filho de Pedro, que não concordava com a idéia. Mas o casamento, segundo eles, não deve mudar suas vidas. Tanto que Ivone vai continuar preferindo ser chamada de ''minha companheira'', ao invés de ''esposa''. ''Também gosto mais de chamar ele de meu companheiro de todo dia'', explica-se.
Ansiosa, a noiva confessa que seu coração bate mais forte quando pensa na cerimônia. Apesar de ser seu segundo casamento, ela garante que o frio na barriga é o mesmo, e que a idade não é nenhum empecilho. ''O importante é gostar um do outro. A idade não tem problema nenhum se os dois vivem bem.''
Dependendo da aposentadoria de ambos para subsistir e comprar remédios, o casal infelizmente não vai ter condições de fazer uma festa para comemorar. ''A gente vai fazer um almoço aqui em casa no sábado, vou comprar coca-cola, que ela gosta, uma cerveja pra mim e um frango assado'', confessa o noivo. Com uma história de amor dessas, nem é preciso mais.


