Lúcio Horta
Até os 75 anos de idade, a grande diversão da curitibana Ada Dalcol Costa eram as viagens. Sempre que podia, tratava de tirar folga da família para entrar num ônibus ou avião e partir para algum canto qualquer do País. Conheceu lugares tão bonitos quanto distantes, como Rio de Janeiro, Porto Alegre, São Paulo e até as famosas águas térmicas da Pousada do Rio Quente, no Estado de Goiás. Nessa viagem, foi eleita a ‘‘miss elegância’’ por todos que participavam da excursão. Também foi para o Uruguai, junto com as irmãs do Colégio Mãe de Deus.
Mas nem ela nem a família imaginavam que a vida poderia dar uma guinada depois dos 70 anos de idade. E foi justamente isso que aconteceu quando dona Ada foi convidada e aceitou o convite para integrar o Grupo de Theatro da Terceira Idade do Sesc, de Londrina, 15 anos atrás. ‘‘No colégio eu já tinha feito teatro. Mas quando um amigo fez o convite, vacilei um pouco. Depois aceitei e não me arrependi. Minha vida mudou completamente. Parar com o teatro, hoje, nem pensar’’, revela a atriz.
Além do sucesso nos palcos, na última sexta-feira dona Ada tinha um motivo a mais para comemorar: ela completou 90 anos de idade, numa festa que reuniu família - uma única filha, quatro netos e sete bisnetos -, amigos e, como não poderia deixar de faltar, toda a turma do teatro. Não faltou bolo, banda de música e gente rodopiando pelo salão até altas horas da noite.
Ada Dalcol nasceu em Curitiba ainda na primeira metade do século, onde se casou. Ficou viúva com apenas 22 anos e, depois disso, passou a se dedicar apenas à família, às viagens, às compras, e nunca mais quis se casar. Jovem, bonita e sempre muito elegante, os pretendentes nunca deixaram de rondar por perto. Mas nenhum teve sucesso. ‘‘Casamento é um só’’, defende. ‘‘E eu sempre gostei de ter liberdade. Por isso nunca mais me casei e não me arrependi.’’
Dona Ada chegou à Londrina em 1947, onde encontrou uma cidade ainda nova, que se preparava para viver o auge do desenvolvimento produzido pelo café. ‘‘Na época não tinha calçadão, não tinha calçada, era tudo um barro só, um barro vermelho. Até a prefeitura era de madeira’’, relembra. O surgimento das grandes avenidas e arranha-céus da cidade não assustam a jovem senhora, que mora no 15º andar de um prédio no centro da cidade. ‘‘Muita coisa mudou de lá para cá. A cidade mudou’’, observa.
A receita para tanta vitalidade Dona Ada não esconde. Ela praticou yoga durante 10 anos e hoje não dispensa um alongamento diário. Também faz massagens periódicas, sem contar os exercícios intensos que exige o teatro. E ainda arruma tempo para outras atividades, como fazer roupas em crochê para distribuir para crianças carentes.
E não é só: todo sábado tem baile da terceira idade, realizado no Sesc, onde dona Ada trabalha duro na organização, arrumando mesas e servindo convidados. Com tantas atividades físicas, raramente precisa recorrer à farmácia por conta de algum problema. A exceção é o comprimido de aspirina que toma diariamente para ajudar na prevenção de doenças cardíacas. ‘‘Na verdade, eu sempre me cuidei e sempre tive boa saúde. A única operação que fiz até hoje foi na vista’’, afirma, com orgulho. ‘‘E o teatro, depois que eu comecei a fazer, também me deixou ainda mais ágil. Ajuda muito na saúde.’’
Desde que começou na vida artística, dona Ada já participou de quatro montagens diferentes e fez apresentações não só em Londrina como Curitiba, Ponta Grossa e Rio de Janeiro. O grande desafio, no entanto, ainda está por vir: em outubro está agendada uma apresentação do grupo do Sesc em Colônia, na Alemanha, para participar do ‘‘It’s My Life’’, um festival de teatro que reunirá grupos da terceira idade de 17 países.
Lá, além de poder fazer uma das coisas que mais gosta, que é viajar, ela também apresentará com os colegas a peça ‘‘Londrina Zona Paraíso’’, dirigido por João Henrique Bernardi. ‘‘Quando chegou a notícia de que iríamos para a Alemanha todo mundo pulou, gritou, foi uma festa. Vamos levar o nome do Brasil para a Alemanha’’, comemora. O convite foi feito o ano passado, durante o Festival Internacional de Teatro (Filo).
Dona Ada lembra que, apesar da empolgação com a nova atividade, a primeira vez que entrou em cena não foi das mais fáceis. O texto estava muito bem decorado, mas o receio de encarar a platéia fez com que o diretor praticamente a empurrasse para dentro do palco. ‘‘Só que depois que a gente entra não vê mais nada’’, ensina. Depois de 15 anos de teatro e 90 de idade, hoje sobra experiência para encarar desafios e platéias diferentes, como a alemã, com tranquilidade. ‘‘Sem contar que o pessoal do grupo é muito divertido, são ótimos companheiros. É como se fosse uma família’’, garante.


PERFIL
Nome: Ada Dalcol Costa
Idade: 90 anos
Estado civil: viúva
Profissão: atriz de teatro
Hobby: viajar

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