A roupa foi escolhida a dedo. O passeio, sonhado durante anos. Ontem, pela primeira vez, seu Miguel Barbosa da Silva, 89 anos, pôde enfim conhecer a Exposição Agropecuária de Londrina. Ele integrou um grupo de 40 idosos, atendidos na Unidade Básica de Sa© úde do Conjunto Armindo Guazzi (Zona Leste), que passou a tarde no Parque Ney Braga. Com uma disposição incomum para a idade, eles foram às principais atrações da feira: pavilhões nacional e internacional, Fazendinha, pavilhões de gado, parque de diversões. Tudo com direito a paradinhas para fazer perguntas e melhor observar tanta novidade.
Seu Miguel era um dos mais animados. No pavilhão nacional, a profusão de estandes o confundiu, e ele quase se perdeu dos companheiros. O susto não lhe tirou o humor: ''Cadê os bois? Preciso ir logo pra lá, a fazenda tá parada, esperando a boiada...''
Ao ver os cavalos na pista de julgamento contou: ''Já trabalhei domando esses bichos. Um dia um deles me jogou contra a cerca, fiquei pendurado. Acabei desistindo desse ofício e fui trabalhar na roça''.
Nesta época o Norte do Paraná ainda era um lugar desconhecido. Seu Miguel morava na região de Promissão, interior de São Paulo. Foi lá que conheceu um meio de transporte semelhante à Catita, a primogênita da frota da Viação Garcia, que também está exposta no Ney Braga. ''Eu viajava em pé numa dessa, quando de repente, num buraco, caí. Sorte que era estrada de terra e não deu para machucar muito'', recorda-se.
A melhor surpresa, porém, viria logo adiante. No estande da Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento, junto aos produtos típicos de cada distrito rural, ele encontrou objetos que não via há anos: rastelo, enxada, pilão, torrador e máquina de moer café, fogão a lenha. Não se conteve, quis mostrar como era o trabalho de socar os grãos, e a emoção foi inevitável. Com os olhos lacrimejando, lembrou de uma época difícil, mas que hoje é motivo de saudade. ''Não tenho mais nada disso em casa''.
Aparentemente incansável, o grupo da chamada 3 idade rumou para a Fazendinha, só perdendo em energia para as dezenas de crianças que continuam a visitar o parque. Diante das reproduções de lavouras e de ambientes rurais, o grato reencontro com os pés de algodão, café, milho, canteiros de hortaliças. Paisagem familiar para a maioria.
Antes de chegar à próxima parada, o parque de diversões, seu Miguel volta à cena. No meio de uma subida, daquelas que tiram o fôlego de jovens sedentários, ele virou para a companheira ao lado, dona Anita Rosa da Silva, de 85 anos, e lhe perguntou a idade. Ao ouvir a resposta propôs: ''Acho que então a senhora pode me acompanhar numa corrida até lá em cima...'' Dona Anita desconversou, mas prometeu que hoje volta para nova visita.
Por causa do horário, a reportagem não pôde acompanhar o grupo ao parque de diversões, desfecho ideal para a tarde animada. Seu Miguel ainda se decidia se encararia a roda gigante, quando deu o parecer sobre o passeio: ''Nunca imaginei que fosse assim. Isso aqui é muito grande, e tudo muito bonito.'' Mas, garantiu não deu para cansar: ''Se precisar, ando até as sete da noite sem parar''.

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