Rubens Burigo Neto
De Curitiba
‘‘Êêêêêê vontade de ganhar uma moeda !’’, ecoa o grito, sobrepondo-se ao barulho das ferramentas dos operários que estão reformando da Rua XV de Novembro, em Curitiba. Certamente o alerta se multiplica para ‘‘milhares de moedas’’ no pensamento dos pedestres que passam pelo calçadão no trecho entre as ruas Presidente Faria e Riachuelo. Sem tempo, ou talvez pensando como tornar o devaneio realidade, poucos acabam dando atenção ao autor do bordão, Vitalino Rodrigues.
Aos 68 anos de idade ele poderia estar curtindo a aposentadoria ou o lazer com os filhos e netos. Mas há 3 anos Rodrigues é mais um protagonista do triste cenário de pobreza que insiste em permanecer nas grandes cidades brasileiras. Cego há 20 anos, depois de um acidente, ele abandonou a agricultura no interior da Bahia – ‘‘onde ganhava um salarinho’’ – e veio para Curitiba com a esposa e dois filhos.
A língua solta trava quando Rodrigues fala sobre a própria vida. Da alheia, prefere nem comentar: ‘‘se não sei de mim o que vou falar da vida dos outros’’, responde com rispidez quando perguntando se considera normal para um homem idoso passar mais de 5 horas por dia esmolando debaixo de marquises.
Esta aspereza no trato com a reportagem não é aplicada no relacionamento com os pedestres. O bom humor prevalece e não são poucas as vezes em que Rodrigues encaixa os pedidos de dinheiro na conversa daqueles que passam à sua frente. Sem qualquer cerimônia brinca com a ‘‘barrigudinha’’ que não dá atenção a ele e segue caminhando. ‘‘O de camisa branca nem olhou para cᒒ, esbraveja sorrindo. Mas como ele consegue observar estes detalhes? Mais um mistério na vida dele.
Rodrigues conta que o minguado ganho obtido durante as 5 horas, em média, que permanece no calçadão não passa dos R$ 12,00 e está ficando ‘‘cada vez pior’’. Todos os dias ele sai de casa, em Campina Grande do Sul, logo ao amanhecer. Com a ajuda de desconhecidos, consegue ir do Terminal do Guadalupe até a Rua XV. A família não se importa, já que a renda de um dos filhos, que é pedreiro, não garante o sustento. ‘‘Estou devendo e só pedindo esmola vou conseguir pagar. E ficar como bode bichando não tem jeito’’.

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