Aos 55 anos, Maria Luísa finalmente conheceu o mar
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segunda-feira, 18 de março de 2002
Adriana De Cunto 
Cinquenta e cinco anos e ainda não conhecia o mar. Nem perto da praia Maria Luísa havia chegado. Viveu sempre em uma pequena cidade do interior do Paraná. Foi com dificuldades e contra a vontade do pai que terminou o curso de magistério e até os 30 anos não havia se distanciado mais de 150 quilômetros da cidade onde nasceu. Solteira, cuidou dos pais doentes, ajudou os irmãos a pagar a faculdade dos sobrinhos. Não sobrou tempo, nem mesmo dinheiro para ir à Praia de Leste ou Matinhos.
A grande chance de conhecer o Litoral finalmente surgiu. E não era para qualquer praia, mas para a Cidade Maravilhosa. O primeiro prêmio do bingo promovido por uma escola da cidade era um lugar em uma excursão para o Rio de Janeiro. A sorte finalmente sorriu para Maria Luísa. Além de faturar a viagem na cartela cheia, ainda ganhou, na linha, um guarda-sol.
Maria Luísa ficou famosa. Até quem não a conhecia foi à Praça da Matriz, no dia da viagem, para se despedir da professora. Ela nem se importou com a perna marcada pelas varizes e subiu no ônibus de bermuda de malha azul claro e camiseta branca. Foi uma noite inteira de viagem. Ao amanhecer, o grupo, formado principalmente por aposentados, parou em Aparecida do Norte.
Já passava muito do horário do almoço quando o ônibus chegou ao Rio de Janeiro. Da estrada, Maria Luísa pouco conseguiu ver do mar. Na Avenida Brasil, começou a ficar mais atenta. Quando finalmente o ônibus entrou na Avenida Atlântica, em Copacabana, e a praia sugiu na janela, Maria Luísa chorou. Soluçando, pisou na areia. Os cariocas não entenderam quando ela e mais 35 velhinhos entraram de roupa no mar e brincaram feito crianças.
Foram quatro dias de alegria. O hotel simples, no Leblon, era um cinco estrelas para a professora. Subiram ao Cristo Redentor e ao Pão de Açúcar. Em Ipanema, Maria Luísa e uma amiga acreditam ter visto Francisco Cuoco.
Maria Luísa era uma das mais animadas da excursão. Por isso mesmo o pessoal estranhou quando ela faltou ao encontro marcado, alguns dias depois do grupo retornar, dizendo que não se sentia bem, com dores no corpo e febre alta. Maria Luísa entrou para as estatísticas da prefeitura como o primeiro caso confirmado de dengue na cidade.
Quem imaginou que a maré de sorte havia abandonado Maria Luísa, voltou atrás semanas depois quando Arlindo, o mulato articulado que a professora conheceu na barca para Ilha de Paquetá, chegou na cidade para visitar a namorada paranaense.


