Aos 306 anos, Curitiba escolhe símbolo
Albari RosaO Jardim Botânico, do começo dos anos 90, se transformou numa das áreas de lazer preferidasNo livro As cidades invisíveis do escritor italiano Italo Calvino, o mercador Marco Polo descreve ao conquistador mongol Kublai Kahn cada uma das cidades que visitou em sua viagem pelo mundo. Descrevendo formas e paisagens e contando sobre pessoas e fatos, o mercador vai se valendo dos símbolos para mostrar a Khan o espírito dos vilarejos e das metrópoles. A tarefa é difícil. Tanto que o navegador veneziano acabou envelhecendo ao lado do imperador mongol.
Menos trabalhoso que a narração de Marco Polo, os habitantes de Curitiba vão participar de um concurso para a escolha do símbolo que sintetize o espírito de sua cidade. Idealizada por um banco, na vésperas do aniversário do município, a campanha Eleja Curitiba estabeleceu seis pontos que a princípio poderiam expressar a identidade da cidade.
Albari RosaA Boca Maldita é reduto de conversas políticas junto aos cafésA Boca Maldita, Jardim Botânico, Ópera de Arame, Rua das Flores e os parques Barigui e Tanguá foram apresentados pela prefeitura e o Banco Itaú como os mais representativos. Os nomes foram escolhidos depois da votação de 18 opções feita por 35 representantes de vários segmentos da sociedade. Mas será que estes seriam os símbolos que você escolheria?
Nascida num capão repleto de araucárias, onde está a Catedral Metropolitana, a cidade - que hoje é metrópole - poderia ser sintetizada de maneira diferente aos olhos do cacique tindiquera, que com sua lança estabeleceu o marco zero, em 1693, ou na visão dos descendentes poloneses, italianos e japoneses que, centenas de anos depois, administraram suas virtudes e problemas.
Albari RosaO Parque Barigui reúne gente que faz exercício e parques de diversõesA nossa Curitiba surgiu cercada por lendas. Como a da imagem de Nossa Senhora da Luz, que todas as manhãs, virava-se da igreja de Vila Velha, no sopé da Serra de Paranaguá, em direção aos campos curitibanos. Ou da formação da cidade, cujo marco zero (conhecido como Vilinha) é contestado pelo arqueólogo Igor Schimz.
Independentemente disso, a Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais atraiu diversos aventureiros, interessados pela promessa do ouro. Mas, por se frustrarem, acabaram atuando em outras atividades, como a pecuária e a erva-mate. Conta o historiador francês Auguste Saint-Hilaire, que visitou a cidade em 1820, que Curitiba tinha apenas 220 casas pequenas cobertas de telhas, incorporando-se a paisagem de pinheiros. Os seus habitantes já eram imigrantes ou filhos de europeus.
Albari RosaA Ópera de Arame é palco de espetáculos e ponto turístico da cidadeNo entanto, somente quando se tornou capital da província do Paraná, que Curitiba iniciou sua expansão. Dias em que começaram a aparecer as primeiras levas de imigrantes europeus, que formaram suas colônias em Santa Felicidade e no Bacacheri. Vieram italianos, alemães, suíços, austríacos, japoneses. De apenas duas ruas em 1857, a cidade virou uma metrópole um século depois.
Foi nesta época, nos anos 60, que o atual plano diretor foi elaborado por um arquiteto italiano, Jorge Wilheim, modificando a cara da cidade. Com 600 mil habitantes, a cidade ganharia inovações no transporte urbano e na sua concepção de espaço. Parques surgiram nos leitos dos rios, como Barigui. E a principal rua da cidade seria fechada - a Rua XV de Novembro -, transformando-se num grande calçadão, que abriga a Boca Maldita. Estes locais se tornaram ícones da cidade.
Mais tarde, inchada e com maiores problemas, a metrópole curitibana forjaria novos símbolos. Praças, monumentos, parques, teatros foram se formando de acordo com a visão de seus administradores, que construíam cidades sobre cidades. Então surgiram, a Ópera do Arame, Jardim Botânico, parque Tanguá, entre outros espaços.
Albari RosaO mais novo dos parques, o Tanguá, já esta entre os preferidosAgora, 306 anos depois de sua fundação, a cidade volta se redefinir. Durante todo o mês de abril, os curitibanos poderão escolher pelo voto que o monumento ou local os identificam. A campanha Eleja Curitiba vai colocar urnas nos bancos e em pontos estratégicos para facilitar a eleição.
O resultado da pesquisa sai uma semana depois do fim da votações, como aconteceu em outras seis cidades patrocinadas pelo banco. A primeira foi São Paulo, em 1990. A eleita foi a Avenida Paulista. Porto Alegre elegeu o Monumento do Laçador, em 1991. Três anos depois, foi a vez do Rio de Janeiro, que preferiu o Corcovado. Para os mineiros, o símbolo de Belo Horizonte ficou sendo a Serra do Curral, em 1995. Da campanha de Salvador, em 1996, saiu o Pelourinho como vencedor, e do Recife, em 1997, o Rio Capibaribe e suas pontes.
Seja qual for o local escolhido, como diria o mercado Marco Polo: A memória é redundante: repete os símbolos para que a cidade comece a existir.





