Aos 3 anos ele já pedia para ser adotado
Durante uma viagem de ônibus interestadual o motorista da empresa percebeu que o bebê acompanhado do casal de passageiros não passava bem. Acionou o Conselho Tutelar numa parada em Londrina e a criança teve que ser encaminhada a um hospital.
Vítima de maus tratos, o bebê de apenas 45 dias, que aqui chamaremos de Gustavo, apresentou uma série de complicações de saúde. Desnutrição de grau 3, a mais grave, e até crises convulsivas. Medicado, Gustavo foi tirado dos pais, que apresentavam um comprometimento mental e não sabiam como tratar do único filho.
Abrigado numa instituição para crianças, foram cinco anos de luta na Justiça para que a situação de Gustavo fosse definida. Os pais queriam o filho de volta e estabeleceram moradia na cidade, conseguindo advogados para lutar pela causa. De vez em quando conseguiam na Justiça autorização para visitar o bebê.
Segundo a assistente social Andréa Mansano Ramos, que acompanhou a história de Gustavo desde o início, essas visitas acabavam gerando problemas, inclusive para outras crianças da instituição. ''O casal discutia, não tinha um trato adequado com o filho. A relação dele com os pais biológicos era de muito medo.'' A partir de um relatório entregue à Promotoria da Vara da Infância e Juventude, os pais perderam o direito de ver a criança.
Apesar da pouca idade, aos três anos Gustavo já entendia o significado de família e pedia aos visitantes da instituição que o levassem para casa. ''Me adota'', era o pedido constante do menino, que queria muito ir para uma casa de verdade.
''Durante as visitas de pessoas, principalmente no final do ano, ele via um amiguinho indo embora com algum casal e pedia que o levassem junto''. Os relatos, tanto da assistente social quanto da Promotora Édina de Paula, são de que a criança cercava a pessoa ou segurava pela mão, fazendo o apelo. ''Era cruel ver aquilo'', afirmou a promotora.
A situação comovente não é exclusividade de Gustavo, mas da maioria das crianças que vive num abrigo, aguardando por uma família. ''Todas as crianças que atingem uma determinada idade pedem para serem adotadas. Elas querem uma família, querem um lar, querem ir prá casa'', afirmou a assistente social.
No caso de Gustavo, o sonho da família foi concretizado no final do ano passado, por acaso. A mãe social, Janair Martins da Silva, a Nainha, que cuidou dele desde bebê, relembra emocionada o dia em que levou o menino a uma festa de casamento, em novembro. ''Ele tinha a minha família como a dele e foi convidado pelo noivo para ir ao casamento. Na festa, o menino que queria ter pai e mãe cercou um casal, sobrinho de Nainha, e mais uma vez fez o pedido. O apelo da criança comoveu a família, que deu a ele um lar de verdade.
Gustavo hoje vive em outra cidade, com os pais adotivos e uma irmã, praticamente da mesma idade. No contato com Nainha, ele diz que sente saudades, mas não quer voltar para o abrigo. ''Ele permaneceu dentro da minha família mesmo e isso me deixa muito feliz'', relata a mãe social, chorando. Ela vai receber a visita do pequeno nos próximos dias. ''Vai ser o primeiro encontro desde que ele deixou o lar. Fico imaginando a alegria dele''.
Para a assistente social Andréa Ramos, o que aconteceu com Gustavo foi um ''milagre de Deus''. ''O processo de adoção neste caso foi rápido, porque a maioria dos casais prefere bebês, então conseguimos acelerar a adoção de Gustavo, que já tinha cinco anos. Ele hoje está feliz e tem a família que tanto queria''. (M.O)





