Um dos anúncios de emprego que tem despertado maior curiosidade são as propostas para jovens sem experiência nenhuma, pagando salários que chegam a R$ 3 mil e oferecendo cursos de aperfeiçoamento no exterior. A reportagem da Folha compareceu a dois desses lugares.
Na empresa Gudenstar, depois de preencher fichas e passar por uma rígida entrevista de 45 minutos, o repórter acabou contratado para vender cursos de inglês para altos funcionários de empresas.
As propostas desse tipo de emprego são sempre muito parecidas. Com o anúncio na mão - que avisava que vendedores não seriam aceitos - os candidatos vão chegando, sabendo apenas que o trabalho paga bem e não exige quase nada. Na sala com som ambiente e muitas fotos espalhadas por painéis - com paisagens convidativas do Caribe - a conversa é uma só: para que será o emprego? Um curioso chega mais perto das fotos e relata: são viagens distribuídas como prêmio aos melhores funcionários.
A empolgação e o nervosismo tomam conta da sala, quase ao mesmo tempo em que os testes começam a ser aplicados. Alguns minutos depois seis pessoas são chamadas para a entrevista, que é feita com todos de uma só vez. Muito agitado, o gerente de Recursos Humanos, Valdir, começa a sua palestra e se irrita ao ser interrompido pelo telefone três vezes seguidas. ‘‘Somos uma empresa multinacional cosmopolita criada por várias empresas multinacionais associadas que também foram criadas por outras empresas internacionais associadas para atuar no Brasil com a venda de sistemas destinado à educação’’. Complicado para você ? Imagine ouvir essa conversa por 45 minutos. Ao final, com todos esgotados, Valdir convida três a se retirar e anuncia em tom triunfal que o repórter e mais dois estavam contratados e deviam iniciar no dia seguinte. O repórter então pede demissão antes mesmo de começar, sob o olhar incrédulo de Valdir, que recupera a pose segundos depois: ‘‘Não faz mal, eu chamo outro.’’
Alto e forte - Uma proposta que chamava atenção nos classificados da última semana era a possibilidade de contratação de um engenheiro, encarregado ou mestre de obras, com experiência em pré-moldados e fiscalização de trabalho em construção civil. Até aí nada de especial. Mas também havia a exigência de ter personalidade forte, pesar no mínimo 80 quilos e medir mais de 1,80 m.
Procurado para saber a razão da exigência, o proprietário da agência de publicidade Motivo, Wesler dos Santos - responsável pelo anúncio -, informou que a empresa contratante quer alguém com características necessárias para quem vai lidar com operários de obra. ‘‘A empresa procura um capataz moderno que tenha formação profissional, não tenha linha dura, mas não seja muito sorridente.’’ Santos explica que o perfil atlético exigido pelo anúncio faz parte da política da empresa, que ‘‘exige alguém com voz de comando.’’ Santos explica que essa restrição não é ‘‘preconceito com os mais fracos, mas apenas uma exigência da função, que é lidar com peões.’’ (G.V.)

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