Anúncio em jornal facilita atividade
O nome dela está no jornal. Uma das muitas Talitas, Patrícias, Letícias e Kelis que anunciam prazeres sexuais nos classificados. Paty (nome de guerra) tem 20 anos e passa a noite atendendo a telefonemas ou fazendo programas. Ela conta que está nesse negócio por insistência de uma amiga, que já tem 30 anos e não suporta mais o ritmo de trabalho. Eu tenho meus clientes fixos, mas de vez quando eu dou uma mãozinha para ela, diz Paty.
Morena, cabelos longos, corpo cuidado por uma dieta balanceada por seu médico, Paty diz ter trabalhado num shopping de Curitiba. Mas o salário era merreca. Ela, como todas as outras, espera mudar de vida, arrumar um marido ou um emprego que pague bem. Eu tenho o segundo grau, estudo inglês e vou fazer cursinho, diz. Minha mãe e minha família não sabem que eu faço isso, minto que trabalho num hotel como recepcionista. Não sei se está colando. Acho que mamãe desconfia e finge que não sabe. Se eu contasse em casa, meu padastro me mataria.
Ela diz ganhar de R$ 100,00 a 200,00 por programa e que uma parte deste dinheiro vai para uma conta de poupança e a outra, para a mãe e o irmão. Eu paguei o cursinho do meu irmão durante o ano passado inteiro. Ele quer ser advogado. Insisti para que mamãe não o colocasse para trabalhar, mas o mano reprovou no vestibular. Talvez o cursinho não fosse bom. Este ano eu vou pagar novamente os estudos dele, diz.
A preocupação de Paty é selecionar bem sua clientela. Alguns caras pensam que chamar a gente é a mesma coisa que chamar uma pizza, diz. Por isso eu me cuido muito com o caráter das pessoas com quem saio. Tenho quatro clientes que me chamam durante a semana. Dois são casados. Eles têm mais de 40 anos e gostam de realizar comigo fantasias que suas mulheres não aceitam. Nossos programas são em motéis. Um deles é muito ciumento e não gosta de saber dos meus outros parceiros. Já os solteiros são menos criativos e me deixam muito cansada. Nos dois anos que estou nessa vida já transei com gente muito louca. Tive um cliente, um cara rico, com carro importado, que gostava de ir comigo aos cinemas pornôs. Enquanto rolava o filme, ele tirava quase toda minha roupa, me acariciava e não transava comigo. Nunca transou comigo. As outras pessoas que assistiam ao filme mudavam de lugar e ficavam à nossa volta. Fizemos isso muitas vezes, até o dia em que houve uma discussão entre o meu cliente e dois travestis, que nos acusavam de atrapalhar o negócio deles com o nosso show particular.
Religião, nem pensar. Paty brinca com sua descrença lembrando uma letra do cantor Gabriel o Pensador: Não sei que lá do Reino de Deus... Ajoelhou tem que rezar!.
Na semana em que foi feita esta reportagem, Paty estava para embarcar para a Espanha. Ao ser informada de que aquele país integra uma rota de escravas brancas brasileiras, ela ficou um pouco preocupada, mas insistiu na viagem. Uma amiga vai junto comigo e disse que não há perigo. Vamos ficar lá apenas por apenas um mês. Vamos para passear e não para trabalhar. Paty viajou
em seguida e suas amigas de Curitiba não sabem se ela está bem e se foi realmente para a Espanha.





