Campo Mourão – Agnaldo estava no ponto de ônibus esperando para voltar para casa. Estava cansado e pensativo. Cansado por mais um dia em busca do emprego que não lhe aparecia. Pensativo porque precisava arrumar alguma forma de conseguir dinheiro para sustentar a família. Foi quando o ônibus apontou, no final da avenida, que Agnaldo percebeu logo a sua frente a solução para o problema: ‘‘Anuncie aqui’’, dizia a frase pintada no muro.
– É isso!, exclamou o desempregado, assustando outras pessoas que estavam no ponto de ônibus.
Agnaldo não tinha nada para anunciar – a não ser que precisava de emprego – e nem tinha dinheiro para isso. Mas a publicidade em muros podia ser uma boa forma de ganhar dinheiro. Começou vendendo espaços no muro da casa da sogra. Depois usou o muro da casa de um cunhado. Depois do outro e do outro. Quando viu, ja tinha vendido até o muro da madrasta.
Quando os muros dos parentes acabaram, Agnaldo não pensou duas vezes. Começou a pintar propagandas em muros de terrenos vazios que via pela cidade. Até o dono descobrir ou se importar com isso ele já tinha faturado com a venda. O negócio era bom. Na informalidade, Agnaldo não pagava impostos e tinha poucos gastos. Tanto é assim que seu sucesso logo chamou a atenção de outras pessoas. Todo mundo passou a alugar muros.
Hoje o próprio Agnaldo tem dificuldades em conseguir espaços para pintar as publicidades. Os parentes dele já preferem eles mesmos alugar os muros do que cedê-los para Agnaldo. Mas a essa altura isso pouco importa. O lucro fácil obtido com os muros já lhe permitiu uma economia suficiente para montar um outro negócio. A mania que se espalhou pela cidade, no entanto, deixou um alto preço para a socidade: a poluição visual.
As propagandas encheram todos os muros. Elas estão lá, pintadas com letras garrafais, cores berrantes e gostos muitas vezes duvidosos. As autoridades municipais que não se atentaram para o problema a tempo, agora buscam uma ‘‘solução de consenso’’. Tudo culpa do Agnaldo, que ficou desempregado e um dia viu um anúncio num muro em frente ao ponto de ônibus. Ah, se aquele ônibus tivesse chegado dois minutos antes...

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