Antônio Caldeira, o caçador de almas
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de agosto de 1998
James Alberti 
A vida de Antônio Caldeira mudou da água para o vinho depois de 15 minutos de chuva e de um arco-íris, segundo ele, um sinal do elo entre Deus e sua criação. Foi depois de ter a visão da igreja frequentada por sua mãe desenhada bem no meio de um arco-íris, que Antônio Caldeira de Oliveira, 28 anos, deixou de ser traficante de drogas e se tornou caçador de almas.
Em 1990, Caldeira trabalhava em uma empresa de computação bem conceituada de Curitiba, quando se envolveu com drogas. Por conta do vício, perdeu o emprego e tornou-se viciado. Dai caminhou em passos largos para o tráfico. Fiz muita grana e conheci de travestis a gente de renome em Curitiba. Fiz de uma boate um ponto de droga, mas já estava preso ao vício e tudo que ganhava no tráfico, gastava na noite, conta.
A rotina de drogas, boates, sexo durou pouco mais de um ano. O caminho de volta começou às 4 horas de uma madrugada de 1992. Depois de cheirar demais, Caldeira saiu correndo de uma boate suando frio. O coração parecia estar sendo espremido. A língua queria mergulhar garganta abaixo. Senti o gelo da morte, revela.
Caldeira afirma que estava a ponto de ter uma overdose quando apelou para Deus. As coisas são leves (fáceis) para o lado errado, mas o homem tem fé. Eu tinha fé dentro de mim, afirma. Em plena praça Rui Barbosa eu levantei as mãos para cima e disse: se o senhor é o Deus ao qualminha mãe serve... eu largo da droga, se o senhor me livrar dessa (overdose), lembra. Deus o livrou, mas ele não cumpriu a promessa. O homem é falho. Promete e não cumpre.
Caldeira acredita que Deus não esqueceu sua promessa. Ao voltar para casa, ele brigou com a família e voltou às ruas, para o tráfico. Depois de acertar com o traficante que lhe fornecia as drogas, Caldeira foi para Balneário Camboriú, em Santa Catarina, vender cocaína. Seria lá que a vida do traficante começaria a mudar.
Caldeira ficou em uma casa com uma quadrilha que furtava carros no Paraná, mas diz que não sabia de nada. A polícia catarinense descobriu a quadrilha e avisou os policiais paranaenses, que foram até lá para efetuar as prisões. Ao voltar da praia e entrar na casa, Caldeira deu de cara com a polícia. Foi preso como ladrão e escrachado publicamente. Negou o crime e acabou sendo libertado. Minha mãe estava desesperada. O amor é uma coisa tremenda. Eu voltei e minha mãe me abraçou e disse: você precisa ir à Igreja ou você vai morrer, na cadeia ou nas mãos da polícia.
Foi assim que Caldeira voltou para casa. Ao chegar ao bairro Xaxim, onde morava, ele era considerado o retrato do demônio, figura que a religião evangélica de sua mãe tentava expurgar. As palavras e o amor da família, segundo o traficante, mudaram alguma coisa dentro dele. Algo diferente falava dentro de mim, lembra.
Caldeira sabia que iria à igreja. Às 16 horas saiu de casa e fumou maconha com um amigo. O sol esquentava aquele dia de julho de 1992. Depois de 15 minutos de uma chuva de verão surgiu um arco-íris. No meio dele, Caldeira viu a igreja para onde ia. Foi o sinal da minha aliança com Deus. Naquele dia, Ele fez uma aliança comigo, como se dissesse: vou tirar você do vício e fazer de você uma nova vida, diz.
Os baseados daquele dia foram os últimos de sua vida; pelo menos até agora. Caldeira se casou e tem uma filha de um ano. Trabalha como motorista e é díacono de uma igreja, que o apoia na luta para recuperar viciados em drogas.


