Edson MazzettoRecordaçõesO casal Afonso e Enedina Bratti: ‘‘causos’’ sobre aventureiros e crença nos boatos sobre ouro na regiãoAfonso Bratti, 61 anos, a mulher dele, Enedina, 61, e dois dos nove filhos do casal ocupam 64 hectares de terra onde se localiza o Sítio Ouro Verde (dentro da área). De casa, eles podem ver as escavações arqueológicas para retirada de peças dos povos primitivos da região. Metade da área ocupada por eles será alagada.
Afonso diz não entender muito bem o porquê das escavações. ‘‘Ali tem alguma coisa que não é só de índio’’, suspeita Enedina. Ela e o marido contam que ‘‘os antigos’’ procuraram ouro no local, abrindo buracos com explosões com dinamite.
A região ao longo do Rio Iguaçu teve ocupação mais densa a partir da década de 50, com a entrada de colonos do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. A família Bratti é um exemplo típico. Eles chegaram há 35 anos, introduzindo culturas de milho e feijão, principalmente, de acordo com a vocação da terra, com topografia muito acidentada.
Enedina, ‘‘italiana’’, que conversa muito, relata toda a crendice popular que envolvia a área das pesquisas arqueológicas. ‘‘Um conhecido nosso disse há muito tempo que ali tinha ouro para sete gerações.’’
O ‘‘conhecido’’ teria se proposto a fazer escavações, em troca de um crucifixo de ouro enterrado. Enedina acha que ele sabia muito bem o que tinha ali. ‘‘Porque senão, como sabia que ali tinha um crucifixo?’’
A mulher completa o ‘‘causo’’. ‘‘Ele foi assassinado misteriosamente bem nos dias em que ia fazer as escavações’’. Afonso conta outro ‘‘causo’’. ‘‘Uma vez, quando os cachorros cavavam uma toca de tatu no local, de repente começaram gemidos muito altos e aí jorrou uma fortíssima vertente de água.’’
Os arqueólogos chegaram ao Sítio Ouro Verde através de relatos dos Bratti sobre os desenhos nas rochas - os agricultores nunca encontraram artefatos.
‘‘Naturalmente há o misticismo popular em torno destes locais’’, observa a arqueóloga Cláudia Inês Parellada. Isso pode até mesmo comprometer a preservação dos sítios até que sejam efetivamente pesquisados. As explosões com dinamite ‘‘à procura de ouro’’ não chegaram a afetar os pontos que concentram grande número de desenhos.
A hipótese de existência de ouro no sítio é inteiramente descartada, porque os primitivos ocupantes do território brasileiro não dominavam a fundição, por isso não se interessariam por metais.
Cláudia Inês, porém, conta uma curiosidade em relação ao Sítio Ouro Verde. Ela conta que as gravuras já foram ‘‘lidas’’ por leigos como palavras em inglês indicando a existência de ouro. ‘‘Cada um faz interpretação pessoal para o que vê. Mas é difícil saber com precisão o que os povos primitivos quiseram indicar ou reproduzir nos desenhos’’, afirma a arqueóloga.

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