Há mais de 20 anos, o ex-lavrador Akio Kuwabara, de Maringá (Noroeste), preserva uma milenar tradição. Junto com a mulher, Ana, ele encontrou nos leques japoneses a forma de sobreviver a tempos difíceis, de pouco trabalho. Hoje ele é o único no País - segundo um comprador do Bairro Liberdade, em São Paulo - a produzir as peças, que fazem a alegria dos mais acalorados. Aos 81 anos, o filho de Hiroshima (ele saiu do Japão aos cinco anos) continua fazendo tudo artesanalmente e usando a técnica que ele e a companheira criaram.
''Não sei se esse é o modo oficial de fazer. É o meu modo'', diz o artesão, que em visitas ao país de origem não teve a curiosidade de descobrir como os japoneses fabricam as ventarolas. Kuwabara diz que não dá para ficar rico com o ofício, que é trabalhoso e exige muita paciência. ''Só bobo faz isso aqui'', brinca, mas não deixa de demonstrar orgulho pelas suas criações. ''Tudo tem que ser exato, como a distância deixada entre as hastes na hora de trançar a linha. No artesanato, se fizer qualquer coisa errada as peças não saem iguais'', ensina.
Ao longo dos anos, o casal foi se adaptando às dificuldades da atividade e até criando mecanismos para facilitar a fabricação dos leques, como uma espécie de agulha feita de bambu para passar a linha entre as varetas. ''No começo a gente vivia com os dedos machucados pelos fiapos que se soltam do bambu. Hoje em dia a gente nem sente mais'', conta seo Kuwabara. Apesar da idade avançada, o artesão se encarrega de todas as etapas do trabalho, que começa com a colheita do bambu na fase certa de maturação. ''Se for muito seco o cabo não fica lisinho, e se for muito verde depois o cabo encolhe.''
Conseguir o papel nos tons em degradê ou com paisagens tipicamente japonesas é outro desafio. ''As gráficas não acertam'', queixa-se o artesão, que conta com a habilidade de dona Ana para dar o acabamento nas ventarolas. ''Só ela consegue'', admite, meio contrariado. Na verdade, a companheira faz muito mais do que colar cuidadosamente a fita que contorna a armação circular. Ela é peça fundamental para que a produção se mantenha, mesmo que, nos últimos anos, em ritmo mais lento. ''Ando meio vagabundo'', confessa o artesão. A companheira, porém, revela que ele ainda faz de 20 a 30 leques por dia.
Além do comércio local, a Fábrica de Leque Utiwa fornece para uma grande loja de kimonos e acessórios de São Paulo. O casal já chegou a ter três empregados para produzir as ventarolas, mas nenhum deles aprendeu o ofício. E como os Kuwabara não têm filhos, Akio admite que a técnica pode se perder no futuro. ''Minha única esperança é um afilhado, mas ele é engenheiro, não sei se vai querer fazer leques.''

Lembranças da infância
A tradição também foi a fonte de inspiração da dona de casa Laís Barbosa dos Santos, 65 anos, que há cinco anos resolveu confeccionar brinquedos de pano. Junto a duas amigas, ela viu nos objetos lúdicos uma forma de aproveitar os retalhos que sobram das confecções e, de quebra, criar uma fonte de renda para a família. Mas ela ''não queria fazer o que todo mundo faz'', então resolveu recorrer às próprias lembranças para criar brinquedos parecidos com os que faziam a alegria da sua infância. ''Queríamos ajudar na educação das crianças usando materiais que iriam ser descartados'', conta Laís, que sente orgulho em dizer que se tornou uma artesã.
Apesar da boa aceitação dos brinquedos por parte de pais e educadores, atualmente ela tenta transpor uma grande barreira: a descrença das próprias mulheres da comunidade. ''Estou com dificuldade de arrumar mais integrantes para o grupo, porque muitas não acreditam que alguém vá se interessar por este tipo de brinquedo em uma época de tantos jogos eletrônicos. Além disso, elas acham muito demorado para confeccionar.''
O que torna trabalho demorado é a riqueza de detalhes de cada peça. O círculo que forma a ciranda - uma espécie de grande tabuleiro, adaptado de um jogo alemão - por exemplo, tem que ser perfeito, se não, ao final, o número de bonequinhos de mãos dadas não será exato. É preciso paciência também para confeccionar do mesmo jeitinho os cinco saquinhos que compõem o bugalho, as 'pedrinhas' do dominó, as cartas do jogo da memória ou as flores de crochê que adornam a divertida almofada transformada em jogo da velha. E o que dizer do avental-cenário, que vira uma selva cheia de perigos na fértil imaginação infantil?
''Fazemos tudo com muito cuidado e por meio de um processo totalmente artesanal. São, portanto, brinquedos duráveis, que não machucam. Além disso eles oferecem um grande leque de possibilidades. Igrejas católicas e evangélicas têm interesse, por exemplo, nos brinquedos com temas bíblicos.'' Enquanto pensa em formas de driblar as dificuldades - como criar uma empresa para poder emitir nota fiscal - Laís dá asas à imaginação. ''Estou pensando em fazer uma boneca de pano em que órgãos como nariz, orelhas e olhos sejam removíveis, para ajudar os bebês a identificar as diferentes partes do corpo humano'', revela, prometendo que não vai desistir da ideia de manter uma valiosa tradição.

mockup