Ano Novo em estado de alerta
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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Champanhe, brindes, fogos, festa. Na comemoração do Réveillon dos profissionais que trabalham com urgência e emergência, esses elementos nem sempre podem estar presentes. No pronto-socorro dos hospitais, nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) ou na central de atendimento do Corpo de Bombeiros, o refrigerante toma lugar do champanhe, as sirenes substituem os fogos e as manifestações efusivas cedem espaço para o estado de alerta.
''Nos últimos oito anos, tenho feito plantões no Natal ou no Ano Novo'', contou o cardiologista Roberto Rodrigues de Queiroz, que no próximo dia 31 trabalhará em uma UTI de Londrina. Como todos os trabalhadores do setor, ele preferia passar as festas em casa. Filho de médico, entretanto, sabia que estaria sujeito a essa rotina quando escolheu a profissão. ''Desde criança conhecia essa realidade'', contou.
Para não passar o Réveillon ''em branco'', Queiroz conta que já é tradicional os funcionários dos hospitais levarem comidas diferentes e realizarem uma ceia. As ligações dos familiares também são esperadas. ''Ano passado, estávamos em São Paulo e minha esposa chegou a ir ao hospital onde estava trabalhando para passar o Natal comigo'', disse.
De acordo com o médico, os plantões das datas comemorativas tendem a ser mais tranquilos, o que não exime os profissionais de surpresas. ''Já atendi uma paciente com enfarto que chegou à meia-noite do dia 24'', recordou ele, lembrando que as emoções afloradas na época das festas acabam aumentando os casos de picos hipertensivos que levam a complicações cardíacas e neurológicas.
Por ter retornado das férias há pouco tempo, Queiroz, que começa 2010 trabalhando, deseja que o ano todo desenrole-se da mesma forma. ''Estou de volta a Londrina faz pouco tempo e espero que seja um ano de muito trabalho.''
Recompensa
Há 10 anos trabalhando na área de saúde, o enfermeiro Fábio Alexandre da Costa, que fará plantão no Hospital do Coração no dia 31, conta que já se acostumou à rotina de trabalho nos feriados. ''Não é a melhor coisa do mundo, porque preferíamos estar com nossas famílias. Mas os profissionais de saúde são preparados para essa realidade'', avaliou.
Como trabalha na UTI, ele não pode sequer participar da confraternização que sempre acontece no solário do hospital ou observar a queima de fogos em um clube próximo. ''Não podemos fazer festa, mas levamos comidas diferentes e autorizamos os funcionários a ligarem para os parentes.''
A lembrança mais triste vem do primeiro Natal passado no hospital, quando tinha apenas 19 anos. ''Meu pai me ligou chorando, queria que eu pedisse demissão e fosse passar o Natal com a família. Mas quem escolhe esse setor tem que se acostumar'', afirmou, acrescentando que hoje os pais estão habituados à ausência do filho. ''A ceia da minha casa é programada de acordo com meu palntão. Esse ano, foi no Natal. No Ano Novo a família vai para a casa de uma tia'', explicou.
Consciente de que os pacientes precisam da dedicação de pessoas que abrem mão das festas em nome da saúde alheia, Costa afirma que sente-se recompensado pela recuperação dos doentes e pela alegria das famílias. ''Neste ano mesmo passaremos o Réveillon com uma paciente que está há 40 dias na UTI e já voltou a falar. Toda a equipe está contente com a recuperação.''
Sirenes ligadas
No quartel do Corpo de Bombeiros de Londrina, a comemoração do Réveillon terá uma ceia especial preparada pelo cozinheiro do grupamento, brindes com refrigerante e a celebração da passagem para 2010 com todas as sirenes e luzes ligadas. ''O pessoal da vizinhança fica esperando. Fica uma festa aqui na frente'', contou o subtenente Laerte Anísio de Oliveira, que em 28 anos de corporação está mais do que acostumado à rotina de trocar as festas pelo trabalho. ''Esse ano trabalhei na noite de Natal e estarei no quartel às 8 horas do dia 1º de janeiro'', disse.
Segundo ele, nesses feriados as ocorrências são intensas até as 22 horas, ''quando as pessoas estão com pressa para chegar ao destino e acabam sofrendo acidentes.'' Depois disso, as ocorrências diminuem e a noite costuma terminar tranquila. ''As pessoas que ligam para solicitar algum serviço sempre desejam Boas Festas.''
Das lembranças dos plantões, ele recorda com tristeza da entrada de 2004, quando uma equipe de dois socorristas capotou a ambulância no trajeto para Tamarana, onde atenderiam uma tentativa de homicídio. ''Eles ficaram presos nas ferragens. O médico não pôde fazer nada até a chegada de um caminhão que retirou os destroços'', recordou o bombeiro, que viveu momentos de angústia ao acompanhar a movimentação pelo rádio do quartel.
Sobre as outras ocorrências, ele não tem informações sobre o destino dos pacientes, mas, independente da época do ano, não gosta dos acidentes envolvendo crianças. ''Não tem jeito, sempre ficamos um pouco tristes.''


