Ano Novo de paz e lixo para alguns moradores
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terça-feira, 04 de janeiro de 2005
Francismar Lemes<br>Reportagem Local 
Se cachorro vira-lata falasse, estaria comemorando o Natal e Ano Novo gordos e com tempo para revirar o lixo à procura de sobras das festas dos últimas dias. Isso porque a coleta só voltará a ser realizada hoje nas regiões Norte e parte da Oeste, onde os coletores fazem o trabalho terça, quinta-feira e sábado. A Fossil Saneamento, empresa que presta serviços para a prefeitura, espera um aumento no volume de lixo em torno de 40%.
Isso significa dizer que, apesar de todo mundo saber que lugar de lixo é no lixo, com os dias sem coleta, o detrito armazenado em sacos plásticos ou em tambores lotados foram pendurados até em cima de árvores. Lugar que, alheio à tentativa de alguns londrinenses para driblar a cachorrada, não é obstáculo para a voracidade de qualquer vira-lata faminto. Para desespero das donas de casa, a bicharada solta na rua acabou espalhando o lixo pelas vias e calçadas.
Leitoa assada, peixe ou churrasco. Não importa o cardápio da festa. Tudo o que sobrou da ceia e do almoço, se não foi reaproveitado em outras receitas nos dias posteriores às comemorações, teve como destino o saco de lixo.
''Desde terça-feira, os lixeiros não passam no conjunto. Tenho acumulado uns quatro sacos de lixo. Acho que não está certo esse negócio (a suspensão da coleta). É complicado porque os restos de alimentos acabam cheirando mal'', reclamou a dona de casa Maria Barros dos Santos, 50 anos, moradora do Conjunto Maria Cecília (Zona Norte).
A coleta na região Norte é realizada durante o dia e na Oeste à noite. No domingo, a Fossil Saneamento colocou oito caminhões na rua para atender alguns bairros da Zona Oeste. A maioria dos moradores, avisada da suspensão do serviço pela imprensa, não colocou o lixo na rua.
Enquanto ontem pela manhã uma matilha de cães aproveitava o tempo de sobra para devorar os restos da feira livre de domingo na Saul Elkind, depositados em tambores ''estacionados'' no canteiro central das duas pistas, moradores e comerciantes da região reclamaram da situação.
''Os restos da feira, o pessoal da rua acabou limpando'', afirmou o comerciante Antonio Araújo, 68 anos, sem desgrudar os olhos dos cachorros virando o lixo em frente ao seu estabelecimento na Saul Elkind.
''Nossa, vixe.'' Com a expressão, José Pereira Araújo, 55 anos, deu a noção do problema. Morador do Conjunto Violin (Zona Norte), o vendedor colocou a boca no trombone. ''Isso aqui virou uma porcaria. Antigamente não tinha feriado nem dia santo para a coleta de lixo. Na minha casa tem dois sacos cheios de lixo da festa de Ano Novo'', acrescentou.
Lixo que não é recolhido muitas vezes vai parar nos terrenos baldios da cidade. ''É horrível porque não tem onde jogar. Muitas pessoas acabam jogando nos terrenos vazios'', lamentou a moradora do Conjunto Milton Gavetti (Zona Norte), a zeladora Terezinha Amorim, 50 anos.
O gerente da Fossil Saneamento, Carlos Roberto Roma, lembrou que o Natal e Ano Novo são os únicos dias que a empresa concede folga aos funcionários, datas que coincidiram com o dia de coleta. ''Amanhã (hoje), acreditamos que terá um aumento de mais de 40% no volume de lixo coletado'', destacou Roma, dizendo ainda que o serviço será realizado pelo mesmo número de coletores da escala normal. Diariamente são recolhidos 500 toneladas de lixo.
Se sobram reclamações com a quantidade de lixo acumulada nesses dias, ainda bem que alguns não têm do que se queixarem. São os catadores de papel que tiveram mais tempo de levantar uma ''feriazinha'' para começarem 2005 com um pouco mais de dinheiro no bolso com a venda de papel e material reciclável, encontrados em abundância no lixo que sobrou na rua.


