Anjos morrem de pobreza
Osmani Costa
O sorriso dela, entre as pétalas de flores brancas e amarelas, era de uma delicadeza estonteante. Lembrava os anjos dos caros cartões de Natal, felicitando a chegada de 2000. Daqueles que começam a congestionar os guichês dos Correios e só entrarão nas casas dos moradores de bairros ricos. O nome, Jaelen Veríssimo, também poderia ser o de uma promissora modelo fotográfico.
Mas, com apenas quatro anos de idade, ela disparou seu último e belo sorriso de dentro de um humilde caixão, durante o seu velório, numa pequena igreja da Vila Marízia, onde morava com sua mãe. Jaelen era filha única de um casal separado. Ela morreu no início da noite de terça-feira, quando aproveitando o que restava do Sol neste período de horário de verão, brincava de jogar pedrinhas nas águas do Córrego Bom Retiro.
Bom Retiro. Para quem? Para quem sai da vida, de surpresa, sem nem se despedir da mãe? Para quem voa ao encontro dos anjos, de maneira inesperada, sem nem ter aprendido a ler e escrever? Jaelen escorregou e caiu de um barranco de cinco metros de altura, nas rasas águas do córrego, que é bonito até no nome, mas poluído e mal tratado em todo o seu curso pela zona leste de Londrina.
Sabendo que não receberia presente de Natal neste ano, como nos anteriores, porque os pais estão desempregados, ela divertia-se brincando com coleguinhas pelas ruas do bairro pobre. Entre a rua asfaltada e o córrego traiçoeiro com seu leito cheio de pedras , o barranco coberto por um liso capim não mede mais que meio metro de largura. E nenhuma calçada, cerca, placa ou outro objeto a evitar a queda livre que ameaça as crianças.
E a mãe, não cuida de uma filha tão pequena, devem estar perguntando os leitores. A resposta é igualmente triste. Desempregada, na hora do acidente ela estava sendo submetida a entrevista pela possível futura patroa, no centro da cidade. Não levei a menina comigo porque tem muita discriminação. Não dão emprego quando sabem que a mulher tem filho pequeno para cuidar, comentou ela, durante o velório de Jaelen.
A menina brincava diariamente nas sujas e perigosas ruas da Vila Marízia onde dezenas de homens desempregados tomam pinga à luz do Sol de segunda a segunda porque o bairro, a primeira favela da cidade, não conta com creche, praça, parque infantil, pré-escola ou outro espaço digno para as crianças passarem suas horas de lazer. E filho de pobre não tem direito a babá.
Em locais pobres como a Marízia, espalhados às dezenas por todas as regiões de Londrina, viver é um difícil exercício para os milhares de meninos e meninas. Brincar, nestas circunstâncias, pode ser um jogo arriscado. O desemprego dos pais pode levar à morte os filhos. De fome, doença, analfabetismo, droga ou afogamento. Como resposta ao último sorriso de Jaelen, a mãe emitiu um choro rouco, baixo, dolorido e inconsolável. Que ficará para sempre na memória de poucos amigos.
Infelizmente, Jaelen não foi a primeira nem será a última vítima do sistema excludente e da falta de atenção das autoridades. No mesmo ponto do Bom Retiro, anos atrás, morreu o menino Edivaldo Paulino da Silva, com oito anos. Na noite do último domingo, a poucos metros da Vila Marízia, onde a BR-369 (Avenida Brasília) corta a Via Yara, o adolescente Diego Yomã Bueno, 13 anos, foi atropelado e morto por um animal que dirigia um velho Passat e fugiu sem prestar socorro à vítima. Diego estava feliz porque acabara de assistir seu time do coração vencer uma partida e chegar à final do campeonato. O futebol é uma das raras alegrias possíveis aos pobres deste país injusto. Até ontem, a polícia não tinha identificado o atropelador, que deve continuar tomando cerveja em algum boteco de esquina.
E assim segue a vida da população londrinense, entre muitos trovões e pouca chuva. Entre muitos escândalos, muitos criminosos, alguns indiciados e poucos presos. Melhor nos shoppings, com ar condicionado, vitrines coloridas e Papai Noel ao vivo. Na periferia, onde os políticos só aparecem com sorrisos às vésperas de eleições, nas próximas semanas outras crianças de pouca sorte morrerão vítimas de algum acidente. É muito perigoso, mesmo para um inocente anjo, estar vivo e ser pobre ao mesmo tempo.





