Josoé de CarvalhoIvone e Julio: ‘Ele nunca mais precisou ser internado.A aparência mudou, está gordinho. Nada como ficar em casa, junto com as pessoas que o amam’Desde o mês passado, a casa do menino Washington dos Santos, 12 anos, tem sido um hospital. Portador de uma doença rara, Washington perdeu 90% do intestino em uma cirurgia. A falta do órgão deixou o organismo do menino sem condições de absorver nutrientes, por isso a alimentação tem que ser feita necessariamente através da corrente sanguínea, aplicada como soro.
A preocupação dos médicos, a partir da operação, era buscar alternativas mais humanas de tratamento para Washington: tirá-lo do hospital e garantir uma vida mais normal para ele. A solução encontrada foi encaminhá-lo para o Programa de Internamento Domiciliar (PID), mais conhecido por Médico de Família. Ou seja, Washington vai para casa e terá atendimento das equipes do programa, com participação da família. Provavelmente, até o final de agosto Washington estará em casa.

Josoé de CarvalhoDomingos da Silva Manoel na cama: após sofrer traumatismo craniano em acidente de moto, ele passa os dias em casa sob os cuidados da irmãA mãe de Washington, Benedita dos Santos, está assustada com a nova situação. ‘‘Logo terei em casa uma criança que precisa de cuidados especiais e dedicação integral. Não tenho conhecimento de técnicas de enfermagem e nem dinheiro para pagar alguém para cuidar. Como vai ser minha vida? O que vou fazer?’’, questionou. Benedita é separada, trabalha como cozinheira e tem outros três filhos.
A dúvida de Benedita afligiu em outros momentos o vigilante Manoel Messias de Souza, a balconista Ivomar de Souza Cavalcante, a comerciária Almira Aparecida Teixeira e a dona-de-casa Gilda da Silva Manoel. Atualmente, eles fazem parte do grupo de 120 cuidadores do PID. Todos têm em casa pacientes com doenças crônicas.
Depois de um derrame cerebral, em novembro de 96, o agricultor José Manoel de Souza, 82 anos, perdeu boa parte dos movimentos. Sem poder se locomover e falando com dificuldade, Souza tornou-se uma pessoa dependente. Mais que isso, um paciente que precisa de cuidados especiais.
A internação domiciliar foi o caminho encontrado para o caso de Souza. A doença crônica o deixaria muito tempo em um leito de hospital ou, na melhor das hipóteses, teria que ser transportado frequentemente para receber atendimento médico.
Inserido no Programa de Internamento Domiciliar (PID), mais conhecido por Médico de Família, Souza passou a ser atendido em casa. O filho, Manoel Messias de Souza, 54 anos, ficou responsável pelos cuidados com o pai. Vigilante bancário, Manoel Messias teve que aprender técnicas de enfermagem.
O banho, os remédios, o alimento, a mudança de posição, os exercícios de fisioterapia e o tratamento das feridas conhecidas como escaras - próprias dos doentes acamados, passaram a fazer parte do dia-a-dia do homem que até pouco tempo entendia mesmo era de segurança.
‘‘É muito difícil. São sofrimentos que se confundem. Meu pai sofre pela doença e a família sofre por ele e pela mudança brusca na vida’’, contou. Manoel Messias trabalha durante a noite, ao chegar em casa pela manhã esquece o cansaço e parte para o segundo ‘‘round’’ da sua jornada de trabalho. ‘‘Tenho esperança na recuperação dele e isso me dá uma força maravilhosa’’, disse.
Para ele, só o fato do pai não estar no hospital já é positivo. O atendimento do PID, segundo Manoel, é essencial. ‘‘Recebi treinamento de como atender meu pai. Uma vez por semana a equipe vem em casa. Quando surge algum problema tenho atendimento imediato. Tudo isso me dá segurança para cuidar dele aqui’’, explicou.
O vigilante participou do 1º Encontro de Cuidadores do PID. ‘‘Vi que o sofrimento não é só comigo. Tive mais ânimo ainda para cuidar do meu pai cada vez melhor’’, contou.

Josoé de CarvalhoOtimismoMessias e o pai José Manoel: ‘Tenho esperança na recuperação delAos 4 meses de vida, o menino Julio César Cavalcanti apresentou os primeiros sintomas de uma doença rara e incurável: a Síndrome de West. O que antes era o choro constante passou a ser convulsões. A partir daí, a vida da balconista Ivomar de Souza Cavalcante, 30 anos, mãe de Julinho, transformou-se. As idas e vindas dos hospitais e postos de saúde impossibilitaram o exercício da profissão. O filho necessitava de cuidados 24 horas por dia. Com o crescimento, Julinho foi apresentando outros sintomas, como falta de ar frequente e secreções que bloqueiam a traquéia.
‘‘Em algumas horas não sabia o que fazer. Eu e meu marido pegávamos ele no colo e corríamos para o hospital’’, contou Ivomar. Com as sessões de fisioterapia, o deslocamento de Julinho era constante. Três vezes por semana era atendido no Hospital Universitário.
Com a última cirurgia, Julinho, que tem agora seis anos, passou a receber alimentos através de uma sonda. E foi nessa internação que ele foi encaminhado para o PID. Na casa, os equipamentos acabam lembrando mesmo um hospital. Ivomar mostra o cilindro de oxigênio que aprendeu a utilizar, e os aparelhos de inalação e para aspirar as secreções.
O alimento é aplicado, a cada duas horas, com uma seringa, direto na sonda. ‘‘Tem que ser completamente líquido, mas seguindo uma dieta especial para que não falte nutrientes’’, explicou a mãe-enfermeira. ‘‘Aprendi a socorrer e cuidar do meu filho’’, contou. ‘‘Ele nunca mais precisou ser internado. A aparência mudou, está gordinho. Nada como ficar em casa, junto com as pessoas que o amam’’.
Segundo Ivomar, diariamente a equipe do PID passa pela casa. ‘‘Às vezes fico lembrando como era minha vida antes do programa. Era tudo muito mais difícil, chegava até a desanimar’’, afirmou. Ela contou que o PID também fornece os medicamentos. ‘‘Isso também facilita, porque meu marido é porteiro e ganha pouco. Os medicamentos são muito caros’’. Para ela, a vida se resume agora na esperança da recuperação do filho.
Um traumatismo craniano provocado por acidente de moto, há cinco meses, mudou o destino do comerciante Domingos Silva Manoel, 28 anos. Agora ele passa os dias em sua casa, mas numa cama própria de hospital. Ainda em recuperação, Domingos necessita de medicamentos e fisioterapia. O papel de cuidadora foi assumido pela irmã, Gilda da Silva Manoel, 32 anos.
Gilda contou que o trabalho não é fácil. ‘‘Ele é muito pesado, às vezes fica difícil para carregar. Na hora de dar banho e trocar a fralda, tenho dificuldades por causa do peso’’, disse. Durante a noite, Gilda dorme em um colchão ao lado da cama de Domingos. ‘‘Não posso descuidar. Tenho que estar atenta para que ele esteja sempre bem’’.
Os profissionais do PID frenquentam a casa três vezes por semana, para acompanhar o tratamento e fazer fisioterapia. ‘‘Se não fosse o Médico de Família nossa situação seria pior. Tenho só que agradecer a Deus, porque posso cuidar do meu irmão. No hospital o tratamento é mais impessoal e, com certeza, a recuperação é mais lenta. O carinho da família é o melhor remédio’’, acredita.
Há seis anos, a comerciária Almira Aparecida Teixeira, 31 anos, deixou o emprego para cuidar da mãe, Maria Paula Teixeira. Vítima de um derrame, Maria Paula tinha perdido parte dos movimentos. No final do ano passado, o segundo derrame deixou-a numa espécie de coma. Sem movimentos ou reações, Maria Paula precisa de atendimento constante.
Alimentando-se por sonda e respirando pela traqueostomia (orifício feito na traqueia para facilitar a respiração), Maria Paula passa os dias como se estivesse dormindo com os olhos abertos. De duas em duas horas, Almira muda a mãe de posição, ‘‘para não dar escaras’’. Enquanto não está preparando o alimento, que deve seguir uma dieta especial e ser bem líquida, Almira está ocupada com os medicamentos, o banho, a inalação, a aspiração de secreções pulmonares e a limpeza da mãe. ‘‘Consome todo meu dia. A dedicação tem que ser integral. Não posso sair para nada’’, disse.
Ela contou que mesmo durante a madrugada não é possível descansar. ‘‘Preciso limpar a canola (tubo metálico usado na traqueostomia) e às vezes trocar a fralda’’. Almira explicou que no começo foi muito complicado. ‘‘Tinha medo de fazer alguma coisa errada, mas fui muito bem treinada pelos funcionários do HU, onde minha mãe estava internada, e pelo pessoal do programa Médico de Família’’.
Para Almira, a vida ‘‘tornou-se uma bagunça’’, mas ela disse não perder a esperança na melhora da mãe. ‘‘Hospital nenhum oferece o tratamento que eu estou dando. Porque o principal é que além de estar capacitada para atendê-la e ter o apoio do Programa, o que não falta em casa é amor e vontade de vê-la viver de novo’’.Eles são essenciais para que o Programa de Internamento Domiciliar funcione. Dedicam 24 horas por dia ao doente e não se deixam vencer pelo cansaço e estresse da mudança radical de vida. Eles são os chamados cuidadores,
pessoas da família ou mesmo vizinhos que passam dia e noite ao lado do paciente internado em casa, zelando para que ele se recupere mais rapidamente e prestando um atendimento que mescla técnicas de enfermagem e muito carinho

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