'Animais refletem o comportamento dos proprietários'
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de março de 1999
Alexandre Sanches 
Os ataques de cães a adultos e crianças, ocorridos nos últimos meses, causando inclusive mortes, têm gerado muitos comentários a respeito da criação de cães de raça, em especial os de médio e grande porte. A raça mais visada é a pittbull, que recentemente atacou dois irmãos no município de Campos (RJ). Por conta deste ataque, o governo determinou que a raça seja proibida no Brasil e que os proprietários destes cães devem castrá-los, acabando com pittbull no país em 10 anos.
A diretora-técnica do Kennel Club de Londrina e médica-veterinária Joane Nishi Kanashiro, acredita que a medida vai ter efeito contrário. A divulgação dos ataques pela imprensa já criou uma procura maior pela raça. As pessoas têm a impressão que este é um excelente cão de guarda. O problema é que as pessoas vão procurar mais o cão e, na clandestinidade, poderá acontecer cruzamentos irregulares com outras raças, adverte.
A agressividade dos cães, independente da raça, depende muito da criação, a forma como ele é tratado pelos donos. Se uma pessoa é agressiva, o cão também será agressivo, pois estará refletindo a personalidade do proprietário. No Brasil, as pessoas acabam adquirindo os cães por impulso, através da massificação da raça, evitando os cuidados que se deve ter com o animal, como a educação dele, comenta a diretora administrativa do Kennel Club e médica veterinária Elisa Matie Nishi.
Criadoras da raça doberman garantem que a educação do animal deve acontecer como a de uma criança. Os cuidados e a atenção são fundamentais para que o cão forme a personalidade. Criá-los com carinho e atenção, evitando o isolamento prolongado para incentivá-lo a ser bravo, não ajuda em nada. Muitos acidentes acontecem não é pela raça do cão, mas pelo comportamento do dono, refletido no animal, ressalta Elisa. Joane enfatiza que possui um cão rottweiler que é manso e dócil.
A fama de violento dos cães pittbull decorre da introdução da raça no Brasil por lutadores de vale-tudo (modalidade que mistura várias artes marciais com luta livre), os bad boys. A escolha deste animal se deve ao seu porte médio, musculoso, à agilidade e por ter uma mordedura forte. O problema é que os donos não condicionam bem o animal, transmitindo a eles a violência praticada nas ruas. Os donos dos cães devem ser punidos pelo comportamento do animal, enfatiza Joane.
Mesmo famosos, os pittbull não têm a raça reconhecida pela Federação Cinológica Internacional (FCI), o órgão máximo que estuda e determina os padrões de reconhecimento das raças de cães. Os pittbull são uma variante dos American Sttaford Shire Terrier, esta sim, raça reconhecida pelo órgão. No Brasil, os Kennel Club não permitem que a raça participe de competições e exposições oficiais. Por este motivo, os criadores de pittbull possuem um clube próprio.
De acordo com as veterinárias, a mistura de raças, com cruzamentos indiscriminados, sem critérios, faz com que muitos cães se tornem agressivos. Elas salientam ainda que só o pedigree (certificado de origem e qualidade da raça) não determina que o animal terá um comportamento exemplar. Nós podemos educar e deseducar os animais. Os cães mais inteligentes você pode educar para o bem ou para o mal. Também deve tomar cuidado na escolha dos adestradores. Primeiro se deve adestrar o comportamento e depois o ataque, orienta Joane.


