Angústia antecede transplante no HE
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terça-feira, 18 de novembro de 1997
Lúcio Horta 
Londrina
Mário CesarDilemaFrancisco Gregori, cirurgião: Nós não podemos viver uma angústia desse tipo novamenteO último transplante de coração realizado em Londrina, dia 9 de novembro, no Hospital Evangélico, foi acompanhado de um drama: não havia quem pagasse os custos da operação do paciente de origem humilde, orçados em aproximadamente R$ 12 mil. O problema é que, para repassar verbas para este tipo de procedimento, o Sistema Único de Saúde (SUS) exige que o hospital tenha um credenciamento específico, depois de cumprir diversos critérios técnicos, entre eles a realização de pelo menos cinco transplantes de coração.
O médico Francisco Gregori Júnior, chefe da equipe que fez a operação, explica que o HE já cumpriu todos os pré-requisitos e solicitou o credenciamento. Os quatro primeiros transplantes feitos no HE, segundo ele, foram custeados pelo próprio hospital. Eram todos pacientes sem condições financeiras de pagar o tratamento. Para a quinta operação, os recursos vieram através da Secretaria Municipal de Saúde, com recursos do SUS. Depois dele, aponta o médico, a secretaria informou que não pagaria mais outro transplante enquanto não fosse concluído o processo de credenciamento.
O problema, segundo Gregori, é que doador não escolhe hora nem local para aparecer. E, até que o HE esteja devidamente credenciado, a possibilidade de fazer uma operação de transplante pode surgir a qualquer momento. Neste caso, ressurge a questão: quem é que vai pagar a conta? Na fila de espera, aponta o médico, ainda permanecem oito pacientes, e não há previsão para concluir o processo de credenciamento, para que o SUS pague as operações.
O caso do último dia 9 foi exemplar: o doador, um homem de 49 anos, vítima de acidente de trânsito, surgiu na noite de sábado. Assim que foi constatada a morte cerebral, a família foi contatada e, de pronto, aceitou fazer a doação do coração. A partir daí, a equipe do médico Gregori passou a fazer o processo de compatibilização entre receptor e doador, ou seja, verificar entre os pacientes que estão na fila, à espera de um coração novo, qual tem condições de receber o órgão disponível.
Pelas características sanguíneas, o rondonense Ismael Caetano, de 19 anos, era o receptor ideal. Ele veio a Londrina em fevereiro deste ano para tratamento e, desde então, espera por um coração novo. A boa notícia chegou no domingo: por volta de meio-dia ele já estava no hospital, passando pela operação.
Vivemos, nesse período, um dilema, aponta Gregori, lembrando que era final de semana e não foi possível conseguir contato com a Secretaria de Saúde para resolver a questão financeira. Ele conta que a equipe médica decidiu então apresentar uma proposta ao hospital: cada uma (equipe e instituição) pagaria a metade da operação e depois ia atrás do ressarcimento, sob risco de não conseguir recuperar os recursos aplicados.
Proposta aprovada, Gregori resolveu então fazer mais uma tentativa: ligou diretamente para o prefeito Antonio Belinati, que passava o final de semana no sítio da família, para expor a situação. Quando atendeu, o prefeito me cumprimentou e disse que estava assistindo a um documentário sobre os 30 anos do primeiro transplante realizado no mundo e se disse feliz e agradecido por ter esse tipo de operação em Londrina, lembrou Gregori. Foi a deixa que ele precisava para solicitar a liberação das verbas.
Belinati autorizou na hora o transplante, que teria recursos da Secretaria de Saúde. A operação foi um sucesso e Ismael está se recuperando bem. Mas e o próximo?, questiona mais uma vez o médico. Ele espera que ainda esta semana seja marcada uma audiência com a Secretaria de Saúde para definir de uma vez por todas a questão. Nós não podemos viver uma angústia deste tipo novamente, diz. Isso não é digno para quem já operou 11 mil pacientes do coração nesta cidade, e menos digno ainda para o paciente.
A expectativa de Gregori é que a secretaria se comprometa a custear novas operações, até que o credenciamento seja oficializado. Essa despesa não compete ao hospital e a gente também não pode ficar dependendo de um órgão nacional. Além do mais, existem recursos na Cidade. O secretário da Saúde, Agajan Der Bedrossian, não foi encontrado ontem para dar entrevista.


