Lucilia Okamura
De Londrina
A adoção tardia (crianças já crescidas) requer uma boa dose de firmeza, paciência e até certa teimosia para que seja levada adiante. A ‘‘receita’’ é dada pelo aposentado Decebal Corneliu Andrei, 80 anos, pai de um adolescente de 16 anos, adotado aos 11 anos. Para incentivar, trocar idéias e difundir a adoção tardia, ele estará lançando amanhã o livro Reencontro com a Esperança, uma coletânea de ensaios que aborda o tema.
Nascido na Romênia, Andrei vive no Brasil há 30 anos. Viúvo, ele tem três filhos biológicos, cinco netos e foi tutor de quatro jovens. Há cinco anos, ainda no Rio de Janeiro, ele resolveu adotar uma criança. ‘‘Estava realizado pessoal e profissionalmente e me perguntei o que poderia fazer da vida’’, conta.
Outro motivo que impulsionou Andrei foi mostrar que pessoas da terceira idade podem aproveitar a experiência de vida, energia e vivacidade mental para fazer algo útil. ‘‘Não adiantava eu ficar fazendo pregação no deserto, por isso pensei em mostrar que podia fazer algo para dar o exemplo’’.
Rafael Bernando, o filho adotivo, foi encontrado em um orfanato de freiras. ‘‘Quando eu adotei uma criança, voltei a viver, passei a ser um membro válido, efetivo e eficiente da sociedade’’, afirma.
Se adotar um recém-nascido já resulta em dificuldades de adaptação, tanto para os pais quanto ao bebê, no caso da adoção tardia, os problemas são maiores ainda. ‘‘As dificuldades aparecem, não são pequenas, poucas e fracas’’, ressalta. ‘‘Mas é preciso tentar encontrar estímulo nas próprias dificuldades’’, ensina.
Andrei observa que a criança colocada para adoção fica com uma carga de ‘‘infelicidade explícita’’ por uma série de fatores – perda dos pais, abandono, exclusão da sociedade etc. ‘‘Ela vem com vários tipos de traumas e complexos e quando entra na família, adota uma série de atitudes que podem parecer contraditórias e até negativas’’, analisa.
Segundo o aposentado, é através dessas atitudes que as crianças tentam reaprender o que é uma família. Daí a necessidade de ter paciência e firmeza para lidar com elas. Andrei ressaltou que a adoção de uma criança já crescida é importante porque evita uma possível marginalização.
É importante ressaltar, segundo Andrei, que numa adoção tardia é preciso haver reciprocidade, isto é, a criança também precisa adotar os pais. ‘‘Se ela não te adota, não vai ter satisfação’’.
Morando há quatro anos em Londrina (onde vivem dois filhos), Andrei diz sentir falta de um grupo de apoio à adoção, que já existe em várias cidades. Ele quer mobilizar pessoas que se interessem pelo assunto para criar na cidade uma entidade que ajude as pessoas interessadas na adoção.
Andrei explicou que teve contato com grupos de apoio à adoção no Rio de Janeiro. ‘‘Passei a colaborar com eles, escrevendo sobre a minha experiência’’, diz. Além de artigos em publicações especializadas, ele vem participando de encontros, dando palestras e sua experiência até se transformou em tese de doutorado.

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