Amor que ultrapassa fronteiras e oceanos
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quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Carolina Gabardo Belo<br>Equipe da Folha 
Curitiba á- No Brasil, a preferência para a adoção é de crianças de seis meses a um ano de idade, meninas, brancas, sem problemas físicos ou doenças. As crianças com até três anos ainda têm facilidade para serem adotadas. Mas, a partir daí, a maioria fica em abrigos até os 18 anos, quando precisa ir embora. ''Na adoção, os brasileiros fazem muitas exigências quanto à cor de pele, aos 'antecedentes' da mãe. É puro preconceito isso'', afirma a juíza da Vara da Infância e Juventude de Curitiba, Lidia Matos Guedes. As crianças mais velhas e os adolescentes geralmente são escolhidos por famílias de outros países.
''A adoção internacional traz grandes benefícios às crianças e adolescentes que os brasileiros não querem. É a chance de uma vida digna fora do País, com pai, mãe e uma família'', diz Lidia. De acordo com a juíza, os estrangeiros não impõem limites e restrições às crianças, que em média são da faixa etária de 7 a 13 anos. ''Eles aceitam muito bem as crianças, querem apenas que sejam saudáveis e que tragam alegria, que a família se complete. Eles têm um amor que atravessa um oceano para buscar uma criança ou um adolescente que é rejeitado pelos brasileiros.''
O Paraná é o segundo estado do Brasil com maior número de crianças que são adotadas por estrangeiros, atrás apenas de São Paulo. Dados da Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH) mostram que, em 2007, foram 55 adoções internacionais de crianças paranaenses e, em 2006, 67.
Para a coordenadora da Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja), Jane Pereira Prestes, mesmo sendo o segundo colocado em todo o Brasil, o número de adoções internacionais é pequeno. ''Lamento que as crianças tenham que atravessar uma fronteira, um oceano, para encontrar amor. Sem a possibilidade da adoção, não podemos condenar uma criança à pena de passar sua maioridade em um abrigo. Mas esse não é um número alto para um Estado com 155 juizados da infância. No ano passado foram apenas 70 crianças adotadas. E três mil estão em abrigos no Paraná'', diz.
Em todo o Brasil, a quantidade de adoções internacionais caiu de 432 em 2005 para 348 em 2007, assim como o número de organizações que fazem o encaminhamento para famílias de outros países, que passou de 49 para 29. A queda nos números ocorreu após ratificação pelo Brasil da Convenção de Haia, que determina o trâmite judicial para a adoção por famílias de outros países.
A SEDH não incentiva a prática da adoção internacional e considera positiva a redução desses números. Para a secretaria, a implementação da convenção garante o controle das adoções, o acompanhamento das crianças e evita o tráfico. A diminuição dos processos internacionais seria também resutado de uma fiscalização mais rigorosa e da ação dos juízes em facilitar a adoção para brasileiros.
Como ocorre o processo de adoção internacional:
- O casal procura em seu país por organizações que articulam a adoção internacional e faz um cadastro com a apresentação de vários documentos.
- Os documentos do casal são enviados para o Brasil e entregues para a Ceja. Esses papéis são encaminhados para os juízes e passam por uma avaliação.
- Depois da aprovação dos documentos, o casal entra para fila de adoção internacional das crianças encaminhadas pela Ceja.
- A documentação das crianças disponíveis para adoção internacional é encaminhada para os países. Depois de feita a indicação de uma candidata, o juiz avalia a possibilidade de adoção.
- Quando aprovada a adoção, as crianças também são preparadas e recebem um álbum de fotos em que conhecem os integrantes da nova família, a nova casa e a cidade onde vão morar.
- O casal vem para o Brasil e passa, junto com a criança, por um estágio de convivência por, no mínimo, um mês e mais o tempo necessário para a legalização da adoção. Se durante esse período não houver vinculação entre o casal e a criança, a adoção não ocorre.
- Durante os primeiros dois anos é enviado para a Ceja um relatório semestral referente ao envolvimento da família e o desenvolvimento das crianças.


