Amor na Linha 203 (Parte 3)
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quinta-feira, 24 de janeiro de 2002
Francelino FrançaReportagem Local 
Na quinta-feira, Lindamir faxina o solar das irmãs Silva. Adriana, aprendiz de cabeleireira, usa a alagoana como cobaia quase toda semana. Lindamir precisa combinar o modelo do top com a cor do cabelo. Nem sempre consegue.
Marilise, a patroa-mor do solar, é casca de ferida quando o assunto é limpeza e, principalmente, pontualidade, o ponto fraco da diarista. Dona Marilise não suporta dias de chuva. O cabelo arma, reclama. Lindamir sentia tremores de medo ao lustrar a galeria de troféus da patroa. Campeã de quê?. Dona Marilise gostava de manguaçar toda noite, descobriu a diarista.
Nos últimos dias, de cabelo novo e o temporal de amor rolando na Linha 203, ela nem ouvia as broncas. Nem o carão com seo Toninho: Lindamir, você é mil vezes linda e mil vezes porca. Ele achara o cesto com roupas para passar. Comprei a revista do João Bidu. Com euforia, Lindamir acordou a patroinha, mostrando o pôster do Xanddy num encarte. Beijou o cantor e contou à garota a quantas ia o romance com o Carlão. Mudou de atividade. Tá tosando lulu de madame. Pra quem foi jardineiro, é fácil, revelou.
Relembrou o primeiro beijo no ônibus. Demorou três dias. Até mudaram o horário de pegar o lotação. Odair, o cobrador de furinho no queixo, começou a hostilizá-la. Travava a catraca, forçando o papo. Nem cobrava mais o vale-transporte. Alto toda vida, Carlão esperou um banco vazio e lascou o beijo. Todo mundo olhou, contou.
Naquela quinta-feira marcaram um passeio. Kellyzinha ficou com a vizinha, chorando inconsolável. Lindamir se encharcou de Charisma, perfume nas últimas gotas. Carlão mora depois da Vila Miséria e se atrasou ao encontro. Enquanto devorava o cachorro quente até lambuzar o top zebrado, se comiam com os olhos. Em cinco minutos, estavam na direção ao ninho de amor de Lindamir, que estava coberto com uma colcha Madrigal laranja e uma boneca tipo dorminhoca. Quando ele desamarrou o top zebrado, Lindamir ouviu a voz Robsmar, o marido que deveria estar trabalhando numa grande construção em São Paulo. Disgramado, voltou na louca, pensou. Foge chumbinho, sussurou a amada utilizando o apelido carinhoso dado ao compridão. Carlão voou pela janela, quase ao mesmo tempo em que Robsmar abriu a porta da cozinha. Que fogo, resumiu Robsmar, enquanto acendia o cigarro. Esparramado na cama, passava o pé na boneca dorminhoca. Nesse momento, enrolada na colcha, Lindamir olhava pela janela.


