Amor na Linha 203 (parte 2)
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quarta-feira, 23 de janeiro de 2002
Francelino FrançaReportagem Local 
O elevador em manutenção exigiu de Lindamir muito fôlego até chegar ao 8º andar. Seo Toninho era um patrão divertido e dono de uma boniteza diferente. O difícil era aguentar o mau humor dele pela manhã. Enrolado numa toalha, disse secamente: trouxe a carteira?. De repente, Lindamir se deu conta que estava no olho da rua. Meu marido não manda dinheiro faz três meses. É eu que sou arrimo, seo Toninho. A Kellyzinha pegou pneumonia, gritava do lado de fora do banheiro. Seo Toninho quase se derreteu com o chororô e voltou atrás da decisão. Saiu sem tomar café e deixou uma pilha de roupas para passar e uma montanha de louças fazendo aniversário.
Enquanto areava as panelas, o som da Paiquerê FM corria solto. Para Angélica, do Ouro Branco; Claudinei, do Heimital e Ana Cristina, do Alexandre Urbanas. Leandro e Leonardo..... Quando o locutor anunciou Temporal de Amor, Lindamir correu serelepe para erguer o volume do rádio e teve uma idéia piramidal. Mas antes a pilha de roupas a ser passada teria de ser eliminada rapidinho.
Sem remorso, Lindamir socou camisas, lençóis e cuecas no fundo do cesto de roupas sujas. Procurou entre os guardados de seo Toninho um papel almaço para copiar a letra da música de Leandro e Leonardo. E com a caligrafia trêmula começou: Chuva no telhado, vento no portão/ E eu aqui nesta solidão.... No outro dia, chegou na creche com a Kellyzinha espirrando. Dona Lindamir, tá frio pra menina andar de top. Trouxe uma blusinha de frio? , perguntou a professora. Lindamir costurava cada top em dois tamanhos. Um para ela, outro para a Kellyzinha. Largou a menina e desapareceu. Odair, o cobrador de furinho no queixo, armou um sorriso quando Lindamir apareceu de top estampadinho.
Antes do cobrador perceber, Lindamir desaparecera. Ela avistou de longe o vendedor de alcinhas de sutiã de silicone. Que abafamento, pensou. Ficou apreensiva. O suor poderia borrar a letra da música que estava apertadinha no top. Carlão, se apresentou o rapaz. Desafiando a lei da gravidade, Lindamir enfiou a mão no top estampadinho e tirou Temporal de Amor. Copiei a letra para uma amiga. Quer pra você?, perguntou. Carlão ficou sem jeito com a homenagem. Prendeu a sacola transbordando alcinhas de silicone entre as pernas, enquanto botava reparo no escrito. Sorriu meio sem graça.
Ela percebeu naquele sorriso um quê do cantor Xanddy, sua paixão. Nem em Arapiraca viu um sorriso assim. Queria mesmo era beijar o beijo daquele homem compridão. Na verdade, ficou sem assunto depois do Temporal de Amor. Carlão estava no segundo degrau, na porta de saída. Quando a porta do ônibus abriu no ponto de Lindamir, Carlão insinuou um beijo no rosto da diarista. Odair, o cobrador de furinho no queixo, assistiu a cena pelo retrovisor e deu sinal para o motorista seguir viagem. Lindamir quase ficou prensada na porta. Como bagre ensaboado, escapou da porta num pulo olímpico na Av. Duque de Caxias. Lindamir perdeu o beijo.


